Artigo - Entre objetos e memórias: a sala de aula como um organismo vivo
Um relato sobre história e memória ambientado em uma sala de aula do nono ano
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Entre objetos e memórias: a sala de aula como um organismo vivo
Artigo por Isadora Alvarenga - Estudante de História Licenciatura
Em um dia comum, em mais uma aula de História do nono ano, junto aos cadernos sobre as mesas, às conversas e às risadas que marcavam presença durante a troca de professores, havia algo especial e incomum naquele espaço. Em cima das classes, não tinham somente estojos e cadernos, mas caixas antigas, fotografias, roupas de bebê, cartas amareladas e brinquedos que já não cabiam mais na idade daqueles adolescentes, mas que ainda transbordavam sentimentos no peito.
O fato é que havíamos solicitado, na aula anterior, que trouxessem um objeto que os fizessem lembrar de coisas boas. O que apelidamos carinhosamente de “atividade com objetos de memória”, era, inicialmente, uma tentativa de aproximar o ensino da História com as realidades de cada estudante daquela turma, auxiliando-os a se entenderem como sujeitos ativos nos processos históricos, que carregam suas próprias trajetórias de vida.
No início, foram poucos os que quiseram apresentar seus objetos, a maioria estava bem tímida. No entanto, aos poucos, aquele espaço deixou de ser apenas uma sala de aula comum, tornando-se um museu da vida de todos que ali estavam presentes. A diferença daquele momento para os museus silenciosos, que contam histórias a partir de estátuas, quadros e pinturas, é que ali tínhamos um museu vivo, pulsante, no qual cada objeto era uma travessia para revivermos nossas infâncias, medos, lutos, famílias, amigos e quem um dia havíamos sido.
Neste dia, falamos sobre memória, sobre como os objetos são testemunhas silenciosas do tempo e sobre como a História não está presente apenas nos grandes acontecimentos, nas guerras mundo afora e nas datas que são cobradas em provas. Ela mora, também, na cozinha da avó com receitas passadas por gerações, no campinho de futebol onde todo final de semana há jogo, na primeira amizade da escola, no processo de superação de um medo.
Se os objetos que levamos pudessem falar, certamente teriam muito a contar. O livro poderia dizer que foi presente de uma avó e que ajudou a despertar o sonho de uma profissão. O sapo de pelúcia poderia se orgulhar por guardar a lembrança de um pai querido. A roupa de bebê celebraria ter acompanhado o crescimento de alguém. A pequena zebra de brinquedo ficaria feliz por carregar a emoção de ter sido o último presente dado por uma avó antes de sua partida.… E, até mesmo, os relatos contados por quem não levou um objeto foram significativos, representando a potência da história oral e dos patrimônios imateriais.
Cada item apresentado revelou fragmentos de histórias que, até então, desconhecíamos, mesmo após um ano letivo inteiro convivendo juntos. Além disso, não foram apenas as emoções de quem estava apresentando seus objetos que vieram à tona, todos os que escutavam também se emocionavam, acolhendo com atenção e respeito cada relato. Era difícil encontrar alguém que não estivesse com os olhos cheios d'água.
Ao final da atividade, recebemos abraços, silêncios que explicavam muitas coisas e desabafos dos alunos, que nos agradeceram pelo momento e relataram que se sentiam muito mais pertencentes às histórias de suas famílias e próximos daqueles conteúdos que costumávamos ver nas aulas.
A partir daquele dia, algo mudou na nossa didática. Percebemos que conhecíamos os conteúdos, mas não cada um com quem dividíamos as manhãs e, naquele momento, fomos testemunhas de algo que os livros didáticos não ensinam: a potência da escuta e do acolhimento. Aquela atividade nos aproximou de um jeito que as aulas tradicionais raramente conseguiam. Descobrimos perdas que nunca haviam sido mencionadas, sonhos guardados, saudades que ainda doem e alegrias que nos motivam.
Todos saímos daquela sala diferentes de quando havíamos chegado, como se uma parte dentro de nós estivesse agradecendo por ter sido vista e compartilhada. Talvez ser professor(a) seja, antes de qualquer outra coisa, aprender a enxergar o outro.
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