Ique de la Rocha
Em defesa da família deles
No discurso, a defesa das “pessoas de bem” e da família. Pena que muitos políticos se referem apenas à família deles.
Ique de la Rocha
No discurso, a defesa das “pessoas de bem” e da família
Pena que muitos políticos se referem apenas à família deles.
Hoje em dia até a expressão “pessoas do bem” foi vulgarizada e apropriada por lideranças da direita brasileira, que costumam se auto-intitular dessa forma. Ao mesmo tempo, tudo o que acusam a esquerda de fazer são esses mesmos direitistas que fazem. Por exemplo, falaram que o Lula iria tornar o Brasil numa ditadura que nem a Venezuela, mas quem tentou um golpe militar a gente sabe e, por isso, está na Papudinha. Acusam a esquerda de envolvimento com o crime organizado, mas também sabemos quem abriga milicianos nos seus gabinetes parlamentares. Acusam a esquerda de roubo e corrupção, mas a cada escândalo financeiro se descobre envolvimento de lideranças políticas, como agora com Daniel Vorcaro que tem ligações comprovadas com vários líderes direitistas e foi o principal financiador das campanhas eleitorais de Jair Bolsonaro e Nikolas Ferreira. Já o partido com mais prefeitos denunciados por corrupção é o PL de Bolsonaro, que só em Santa Catarina tem sete mandatários denunciados.
Então hoje é muito fácil dizer que é do bem, cristão, pela família, patriota, mas o discurso desaba quando constatamos os líderes dessa gente clamando por uma invasão americana ao Brasil mesmo que, para isso, tenhamos de entregar nossas riquezas; ignorando que a escala de trabalho 6x1 impede o relacionamento dos trabalhadores com suas famílias ou com seus filhos, principalmente quando se trata de pais separados; quando o discurso de ódio incita o crescimento comprovado de feminicídios e perseguição aos homossexuais; quando dão as costas para a pobreza ou fazem leis mal feitas propositadamente para colocar na cadeia somente os pobres, que não tem dinheiro para pagar um bom advogado.
Claro que na direita existem, também, pessoas bem intencionadas, verdadeiramente patriotas, cristãos, defensores de uma família unida pelo amor e não fundamentada na hipocrisia. Evidente que em todos os lugares tem os bons e os ruins. A esquerda não escapa de ter também pessoas ruins e fico muito à vontade para falar isso, porque há muitos anos não abraço nenhuma dessas causas. Se pudesse escolher um modelo de desenvolvimento seria o dos países nórdicos, que possuem a melhor qualidade de vida do mundo. São democracias consolidadas, onde convive o capitalismo com os direitos sociais, estes últimos intocáveis. Ninguém ousa mexer nas conquistas da população. Lá tem estatais fortes em setores considerados estratégicos e existe um rodízio entre os governos, ora de direita, ora de esquerda ou de centro e a vida por lá segue sem maiores escândalos.
No Brasil nosso sistema político não incentiva o surgimento de novas lideranças. As reeleições infinitas, a inexistência do voto distrital, os partidos fisiológicos que possuem donos, fazem com que os candidatos sejam quase sempre os mesmos. Faz anos que o eleitor tem de votar no menos pior. Essa situação também incentiva o surgimento de blocos como o Centrão, onde os parlamentares querem vantagens para si e não para os eleitores que prometem representar. As emendas parlamentares são a legalização da corrupção e dificultam ainda mais a renovação na política, pois os deputados e senadores que já levam vantagem sobre os novos candidatos (pela estrutura e visibilidade que dispõem em seus mandatos), ainda tem recursos financeiros para direcionarem aos seus currais eleitorais ou, de modo disfarçado, aos seus próprios bolsos. Os vultosos recursos destinados às emendas parlamentares dariam para o Governo federal realizar algum grande investimento, e só na área de infraestrutura estamos carentes de muita coisa, mas essa fortuna toda é pulverizada na doação de ambulâncias ou mesmo no descabido apoio financeiro aos centros de tiro conhecidos como CACs, como fez a deputada catarinense Júlia Zanatta, do PL.
Certamente a corrupção ainda é o maior mal de nosso país e ela mata. Não apenas nas guerras de bastidores, onde alguns até contratam pistoleiros para aniquilarem seus adversários, mas nas mortes causadas por desvio de recursos na Saúde ou em áreas de assistência social. É um problema tão sério que eu, ainda nos meus trinta anos de idade (bota tempo nisso) já pensava, quando se falava na cobiça mundial pela Amazônia, que não precisava uma potência mundial provocar uma guerra para nos invadir. Bastaria corromper, que é muito mais barato e não sacrificaria muitas vidas. Infelizmente não é difícil corromper governos, políticos, nem mesmo a grande imprensa e lideranças empresariais.
Como vemos agora, com escândalos atingindo todos os poderes e grandes empresários, com uma divulgação seletiva da grande mídia, o Brasil está mergulhado na corrupção com várias máfias atuando ao mesmo tempo em quase todos os setores. E hoje, para mim e sem nenhuma dúvida. a direita representa muito mais perigo para que o quadro atual venha a se agravar, uma vez que ela só mente. Lula não fechou igrejas, a Polícia Federal tem liberdade para agir, o Brasil não se tornou uma Venezuela e muito menos uma ditadura, a economia e o nível de emprego vão bem melhor que no governo anterior, o valor do salário mínimo está sendo preservado e o país não se curvou para os interesses norte-americanos. Enquanto isso, os oponentes ao atual governo, que mostram-se desesperados e dispostos a recuperar o poder nem que seja à força e com o apoio de Trump, já falam em novas “reformas” da Previdência e trabalhista (desvincular o salário mínimo da aposentadoria, que assim irá perdendo valor ano a ano e seguir o Milei, que instituiu 12 horas de trabalho diárias na Argentina). Deverão voltar com propostas para desenvolver a economia, provavelmente semelhantes ou com os mesmos personagens do Governo Bolsonaro, que em quatro anos não gerou um emprego sequer, aprofundou o desemprego e não trouxe nenhum grande investimento para o país, ao contrário do que havia prometido.
Mas, certamente, a defesa das “pessoas de bem” e da família estarão no script direitista. Afinal, eles se declaram dotados dos mais altos valores morais e cristãos e dizem que nada tem mais valor que a família. Pena que se referem somente à família deles.








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