Seja bem-vindo
Rio Grande,11/04/2026

  • A +
  • A -
Publicidade

Luiz Pereira das Neves Neto

Um país chamado infância: a nostalgia como ferramenta de desenvolvimento

A infância é o solo onde germinam valores, percepções e estruturas emocionais. É ali que aprendemos, muitas vezes sem perceber, o que é certo e errado, o que merece afeto e o que deve ser temido


Um país chamado infância: a nostalgia como ferramenta de desenvolvimento

Começo essa conversa com duas frases que instigam as provocações centrais deste texto.

Elas se complementam, sobrepõem-se ou se anulam, só você caro(a) leitor(a) pode ter a resposta.

“O passado não está morto; ele nem sequer é passado.” — William Faulkner “Saudade é um pouco

como fome. Só passa quando se come a presença.” — Clarice Lispector

Há um território que todos habitamos, mas poucos conseguem revisitar com lucidez: a

infância. Não se trata apenas de um período cronológico da vida, mas de um verdadeiro país

simbólico, com suas próprias leis, afetos, descobertas e medos. Um lugar onde as primeiras

experiências moldam silenciosamente aquilo que seremos, mesmo quando acreditamos já ter nos

tornado outra pessoa.

A infância é o solo onde germinam valores, percepções e estruturas emocionais. É ali que

aprendemos, muitas vezes sem perceber, o que é certo e errado, o que merece afeto e o que deve

ser temido. A psicologia do desenvolvimento há muito aponta que nossas primeiras relações —

sobretudo com figuras de cuidado — estabelecem padrões que tendem a se repetir na vida adulta.

Mas até que ponto conseguimos identificar esses padrões?

Nessa travessia, a nostalgia surge como uma espécie de ponte. Não apenas como

saudade idealizada, mas como ferramenta interpretativa. Recordar não é simplesmente reviver; é

reinterpretar. Quando revisitamos memórias da infância, damos a elas novos sentidos à luz da

experiência adulta. Aquilo que antes era apenas um evento, agora se revela como um marco

formador.

Mas há um risco: a nostalgia também pode ser uma armadilha. Ao romantizar o passado,

podemos distorcer a realidade e evitar confrontos necessários com experiências difíceis. Será que

lembramos do que realmente aconteceu ou do que gostaríamos que tivesse acontecido? Essa

pergunta, embora desconfortável, é essencial para um processo de autoconhecimento mais

honesto.

Filósofos como Nietzsche já alertavam para a importância da memória na construção do

sujeito, enquanto Freud apontava para a permanência do inconsciente infantil na vida adulta. A

criança que fomos não desaparece; ela se transforma, se esconde, se manifesta em gestos,

escolhas e até em silêncios. Ignorá-la é, em certa medida, ignorar a nós mesmos.

Por outro lado, revisitar esse “país” exige coragem. Nem todos estão dispostos a

reencontrar suas versões mais vulneráveis, seus medos primários, suas frustrações primeiras.

Talvez por isso essa viagem não seja para todos — ou, ao menos, não no mesmo momento da

vida. Há quem precise primeiro construir estabilidade antes de olhar para trás sem se perder.

E então surge uma questão central: qual versão de nós mesmos é mais autêntica? Aquela

moldada pelas expectativas sociais e experiências acumuladas, ou aquela que começou a se

desenhar na infância? A resposta não é simples, mas talvez resida na integração dessas

dimensões, e não na escolha de uma sobre a outra.

A sociologia também contribui ao lembrar que a infância não é apenas uma experiência

individual, mas socialmente construída. O contexto histórico, econômico e cultural influencia

profundamente esse “país” que habitamos. Assim, revisitar a infância também é compreender o

mundo que nos formou — e, por consequência, as limitações e possibilidades que herdamos dele.

No fim, talvez o maior aprendizado seja este: o país chamado infância nunca deixa de

existir. Ele permanece dentro de nós, acessível em fragmentos, memórias e sensações. A

nostalgia, quando bem utilizada, não é fuga, mas ferramenta. Não é refúgio, mas lente. E talvez

seja justamente ao olhar para trás com consciência que conseguimos, enfim, caminhar para frente

com mais clareza sobre quem somos — e quem ainda podemos ser



COMENTÁRIOS

LEIA TAMBÉM

Buscar

Alterar Local

Anuncie Aqui

Escolha abaixo onde deseja anunciar.

Efetue o Login

Recuperar Senha

Baixe o Nosso Aplicativo!

Tenha todas as novidades na palma da sua mão.

INSTALAR