Luiz Pereira das Neves Neto
Falta de perfil: quando o desencaixe também é aprendizado
Entre a rigidez institucional e a escuta que pulsa, há professores que ensinam com o coração — mesmo que isso custe o lugar.
Falta de perfil: quando o desencaixe também é aprendizado
Entre a rigidez institucional e a escuta que pulsa, há professores que ensinam com o coração — mesmo que isso custe o lugar.
“Sobre o olhar de ensinar sempre paira a tensão entre o que devo, o que eu faço, o que querem e, sobretudo, o ideal.”
Em ambientes profissionais, a palavra “perfil” costuma surgir como uma espécie de sentença elegante. Ela diz tudo e nada ao mesmo tempo. Traduz uma expectativa de encaixe, uma tentativa de medir pessoas por moldes invisíveis. O problema é que, muitas vezes, o que chamam de perfil é apenas a forma socialmente aceita de justificar uma diferença — de valores, de estilo, de geração, de forma de enxergar o mundo.
Vivemos num tempo em que a autenticidade é celebrada nos discursos, mas penalizada na prática. Esperam de nós iniciativa, mas não ousadia demais; empatia, mas sem afetar hierarquias; inovação, desde que não desorganize o costume. E é nesse jogo de aparências e silêncios que muitos profissionais — especialmente os jovens — acabam julgados não por sua competência, mas por sua maneira de existir dentro de estruturas que resistem a mudar.
Dizem que, às vezes, a demissão vem antes da explicação. E foi mais ou menos assim comigo. Depois de um ano ensinando, ouvindo, aprendendo com jovens que me viam como alguém próximo — e não como uma figura distante com um crachá pendurado —, ouvi que meu trabalho não seguia o “perfil da instituição”.
Perfil. Palavra fria, curta, cheia de curvas invisíveis. Fiquei tentando entender o que ela quer dizer. Porque, afinal, meu perfil sempre foi o de quem acredita no diálogo, na escuta, na leveza. O de quem entende que ensinar não é mandar calar, mas fazer pensar.
Os alunos gostavam de mim — e eu deles. E talvez aí estivesse o problema. Em espaços onde a rigidez é confundida com autoridade, a empatia às vezes soa como fraqueza. Há quem se incomode com o riso solto, com o modo de falar de igual para igual. Há quem ache que juventude é sinônimo de inexperiência, não de energia.
Depois, soube pelos corredores (sempre eles) que havia gente me chamando de “sem pulso”. Engraçado: eu achava que o coração de um professor devia mesmo pulsar, não endurecer.
Mas tudo bem. Demorou um tempo, confesso, para eu entender que não foi sobre competência. Foi sobre encaixe. Alguns lugares exigem moldes — e eu, talvez, esteja aprendendo que prefiro espaços que respiram.
Hoje, olho para trás e não sinto raiva. Sinto gratidão. Porque amadurecer é também perceber que o que nos desencaixa de um ambiente é o que nos empurra para outro mais nosso.
Uma vez fui chamado de “imaturo” — e sorri. Porque crescer é isso mesmo: saber quando é hora de sair do status quo ou aceitar o “new world”, mesmo sem entender todas as respostas. A vida, afinal, também é um grande processo seletivo (selecionando o que menos esperamos). E o tempo, esse velho professor, sempre nos recoloca no lugar certo.








COMENTÁRIOS