Maníaco do Cassino: 27 anos de um caso que marcou a região
Desembargador Márcio Schlee Gomes, que atuou no caso, relembra atuação e define os motivos que levam o assunto a não ser esquecido.
Foto: Charles Guerra / Reprodução Após 27 anos desde os crimes que chocaram o litoral sul gaúcho, o caso do homem conhecido como “Maníaco do Cassino”, voltou a repercutir após a negativa de um pedido de progressão para o regime semiaberto. O fato reacendeu lembranças de um dos episódios criminais mais marcantes da história do Rio Grande e do balneário Cassino.
A decisão, assinada em dezembro de 2025 pelo juiz Roberto Coutinho Borba, reconhece que Paulo Sérgio Guimarães da Silva, também conhecido como “Titica”, já cumpriu o requisito legal para progressão de regime e possui conduta carcerária considerada favorável. Ainda assim, o magistrado destacou a gravidade dos crimes e pontos levantados em avaliação psicológica da Superintendência dos Serviços Penitenciários (Susepe). Segundo o documento, o condenado demonstrou pouca preocupação com o sofrimento causado às vítimas e indícios de não compreender integralmente a gravidade dos atos cometidos.
O laudo também aponta que, embora admita os crimes, Paulo Sérgio tende a atribuir parte da responsabilidade às vítimas. Dias após a avaliação, ele se envolveu em uma briga dentro da Penitenciária de Alta Segurança de Charqueadas (Pasc), episódio registrado como falta grave. Além da tentativa de progressão de regime, anteriormente o apenado também já tentou transferência para a Penitenciária Estadual do Rio Grande (PERG), gerando discussões sobre a aproximação do condenado à região onde ocorreram os crimes.
Em entrevista ao O Litorâneo, o desembargador Márcio Schlee Gomes, que em 2002 atuou como promotor de justiça no júri do caso, relembra que o que mais chamava atenção era a crueldade empregada nos crimes. À época, o então promotor deu parecer contrário à tentativa de transferência, que também acabou negada pela 3ª Vara Criminal. Segundo Schlee Gomes, os crimes foram cometidos com requinte de crueldade e tortura psicológica, o que abalou a comunidade rio-grandina.
“Foi um caso de serial killer, algo que muitas vezes vemos acontecer em outros lugares do mundo e que acabou acontecendo em Rio Grande. Chamava muito a atenção a forma como os crimes eram executados, com muito sofrimento para as vítimas, algo extremamente cruel e torturante”, destaca Schlee Gomes.
Relembre o caso
O ano era 1998. Em plena temporada de verão, uma sequência de crimes mergulhou a Praia do Cassino em um cenário de medo. O clima nas ruas era de insegurança e apreensão diante dos assassinatos que abalavam a região, transformando a rotina da população e mobilizando agentes de segurança.
Os crimes eram atribuídos a Paulo Sérgio Guimarães da Silva, um pescador nascido em 1971 e que havia deixado o sistema prisional poucos meses antes, após cumprir pena por tentativa de homicídio. Entre 1998 e 1999, ele atacou ao menos 10 pessoas, sendo responsabilizado por sete homicídios e por deixar uma adolescente tetraplégica.
O modo de atuação seguia um padrão. Casais eram abordados em locais isolados, principalmente na beira da praia do Cassino, sequestrados e obrigados a circular pela região antes de serem assassinados. Os homens costumavam ser amarrados com os próprios cadarços antes de serem mortos, geralmente com tiros pelas costas. Já as mulheres eram alvejadas na nuca. Os crimes incluíam roubos, violência sexual e assassinatos, aprofundando a sensação de vulnerabilidade entre moradores.
Do crime ao cárcere
Naquele período, o balneário vivia um cenário de tensão provocado por uma onda de violência crescente. Entre os casos de maior repercussão estava o chamado “Caso Vitola”, envolvendo o assassinato dos professores universitários Vitor Hugo Vitola e Dacila Vitola, além da empregada da família, Maria Julieta Xavier da Silva. O crime ocorreu em novembro daquele ano e ajudou a instaurar um clima de temor que, meses depois, seria intensificado pelos assassinatos atribuídos ao “Maníaco do Cassino”.
Ao passo que a cidade ainda tentava assimilar o caso, Paulo Sérgio fazia suas duas primeiras vítimas. Felipe Santos, de 19 anos, e Bárbara da Silva, de 22, foram assassinados a tiros na beira da praia do Cassino.
Enquanto a Polícia Civil e a Brigada Militar conduziam investigações simultâneas, cinco suspeitos chegaram a ser presos poucos dias após os primeiros crimes associados ao “Titica”. Em dezembro de 1998, o Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic) indiciou seis homens pela chacina da família Vitola, enquanto policiais rio-grandinos prendiam outros suspeitos ligados às mortes de Felipe e Bárbara. Naquele momento, a sensação entre moradores era de que os casos que aterrorizavam a cidade haviam sido solucionados.
Pouco tempo depois, porém, novos crimes voltariam a espalhar pavor pela região. Após o fim do semestre letivo da Universidade Federal do Rio Grande (FURG), Paulo Sérgio fez novas vítimas: Márcio Olinto, de 30 anos, e Anamaria Xavier Soares, de 31.
Dez dias após as mortes de Márcio e Anamaria, Paulo Sérgio atacou Petrick de Almeida, de 18 anos, e Brenda Graebin, então com 14 anos. Petrick foi assassinado no local. Brenda foi baleada na nuca e perdeu os movimentos do corpo após o disparo. Única sobrevivente dos crimes atribuídos a Paulo Sérgio, Brenda ficou tetraplégica em decorrência das sequelas causadas pelo ataque.
Investigação ganha um rumo
Diante do relato da adolescente, a investigação passou a ter uma descrição mais precisa do criminoso. No entanto, enquanto as buscas avançavam, Paulo Sérgio ainda faria mais duas vítimas. Em 26 de março de 1999, o gerente de vendas Silvio Luiz Klemberg Ibias, de 36 anos, e a professora Adriana Nogueira Simões, de 28, foram assassinados utilizando o mesmo modo de operação dos homicídios anteriores, reforçando para os investigadores a possibilidade de estarem diante de um assassino em série.
Com o aumento do pavor entre os moradores, a polícia intensificou o patrulhamento nas ruas e passou a realizar abordagens e revistas em veículos e pessoas na tentativa de localizar o responsável pelos crimes. Durante a operação, 13 suspeitos chegaram a ser detidos. Os principais alvos eram ex-presidiários, foragidos da justiça e pescadores da região.
Após intensas buscas, abordagens e pistas sem resultado, o “Maníaco do Cassino” foi identificado e preso em 27 de abril de 1999, em São José do Norte, após investigações retomarem um antigo indício ligado ao caso.
Passados 27 anos, o caso ainda permanece vivo na memória da região. Para Schlee Gomes, o trauma causado pelos crimes ajuda a explicar por que o episódio segue tão presente no imaginário coletivo.
“Foi algo muito traumático para toda a comunidade. As pessoas se solidarizam com as vítimas e com os familiares porque poderiam estar naquela situação. Era um contexto muito próximo da realidade de quem frequentava o Cassino e o Rio Grande. Por isso, é um caso muito difícil de ser esquecido”, finaliza.
Conforme relatos reunidos durante as investigações, Paulo Sérgio demonstrava preocupação com a repercussão dos assassinatos e costumava permanecer próximo aos locais dos crimes para acompanhar a chegada da polícia e observar a reação da comunidade. Em depoimento, afirmou ter se inspirado nos crimes cometidos por Francisco de Assis Pereira, conhecido nacionalmente como “Maníaco do Parque”.








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