Ique de la Rocha
Esposa não pertence ao homem, muito menos a ex
Força bruta não é sinal de superioridade, mas tem mulher que defende isso
Deus nos deu a inteligência para raciocinarmos, da mesma forma que tudo que Ele nos proporciona tem um sentido. Nada é em vão e partindo desse princípio a gente, utilizando a racionalidade, constata que todo o fanatismo, todos os extremos, fazem mal às pessoas. Desde uma alimentação exagerada até o que temos visto nos dias de hoje com relação às religiões e às ideologias políticas. Todas elas, levadas ao extremo, já causaram e continuarão causando grandes males à Humanidade. Nesses casos, certamente devemos questionar essas lideranças, que estão levando os seus rebanhos para o lado oposto do que prometem.
Hoje vemos no mundo, e especialmente no Brasil, que a fusão entre religião e política está levando a um índice de feminicídios nunca visto antes. Enquanto se discursa em defesa da família, vemos diariamente famílias sendo dizimadas por esses atos covardes, onde a mulher tem a vida ceifada e, muitas vezes, deixando os filhos desamparados ou filhos de pais assassinos de suas próprias mães. Ainda por cima temos de aturar pronunciamentos como o do Frei Gilson, de artistas, “celebridades”, em meio a esse clima pesado, querendo convencer que o sexo masculino é superior e que as mulheres devem se subordinar aos homens. Lógico que para chegar a uma conclusão estapafúrdia dessas, a avaliação está se dando tão somente pela força bruta, porque no mais a mulher é mais forte, como para lidar com os problemas familiares e para enfrentar a viuvez. Tirando o aspecto financeiro, pois o mercado de trabalho ainda privilegia o sexo masculino, ela depende menos do homem do que o homem da mulher. Profissionalmente, então, em todas as funções que ela exerce em nada fica devendo ao sexo oposto e, se o mundo não tivesse mulheres, dá para imaginar o caos ainda maior que seria.
Na verdade os homens estão com medo da ascensão da mulher Essa insegurança denota falta de inteligência, inclusive, porque os dois, quando existe amor, se completam. E quanto mais elas forem se libertando (e “libertando” é uma palavra muito adequada neste caso), pois ainda existem muitas que aceitam serem subjugadas, menos feminicídios teremos e partiremos para um padrão de família com mais amor, respeito e cumplicidade. Infelizmente, hoje um número expressivo da chamada família tradicional se apresenta com uma bonita embalagem, mas o seu teor está com a data vencida, onde o machão manda e o resto obedece para não falarmos de outros estragos que muitas vezes acontece entre quatro paredes.
Do livro “O Evangelho segundo o Espiritismo”, de Allan Kardec, destaco este trecho que encontra-se no capítulo IX (Bem-aventurados aqueles que são brandos e pacíficos): “A essa classe (dos que no interior dos lares querem fazer valer sua supremacia na base da força) pertencem ainda esses homens benignos por fora e que, tiranos domésticos, fazem sofrer sua família e seus subordinados, o peso do seu orgulho e do seu despotismo, como querendo-se compensar do constrangimento que se impuseram alhures. Não se atrevendo a usar de autoridade sobre estranhos que os recolocariam em seu lugar, eles querem ao menos ser temidos por aqueles que não podem resistir-lhes ; sua vaidade alegra-se de poder dizer:” Aqui eu mando e sou obedecido”; sem pensar que poderiam acrescentar com mais razão: “E sou detestado” (Lázaro).
Na edição desta terça-feira, o jornal “A Tarde”, de Salvador, traz excelente artigo do professor universitário José Medrado (“Normaliza-se tudo”), onde em dado momento escreve: “O que me preocupa de verdade é como estamos assistindo à naturalização da agressividade masculina. Juliano Cazarré lança curso para ‘homens enfraquecidos’. Batizado de ‘O farol e a forja’, projeto abordará temas como masculinidade e cristianismo. O perigo é que isso valida a ideia de que o homem deve ‘impor respeito’, através da força ou do controle, e o pior: há um número assustador de mulheres que concordam e defendem esses posicionamentos, acreditando que o autoritarismo é sinônimo de proteção. Se a sociedade - e as instituições religiosas – passam a ver o comportamento ríspido, o controle financeiro e a explosão emocional como ‘características naturais do homem’, o caminho para o feminicídio está pavimentado”.
Também Nesta terça, na “Folha de S.Paulo”, a articulista Mariliz Pereira Jorge (“Curso de empoderamento para macho”) diz que “a desorientação masculina é justamente resultado do culto a esse modelo de masculinidade que não serve mais em uma sociedade onde 51,7% (Pnad, 2024) dos lares brasileiros estão sob responsabilidade feminina. O único curso útil de empoderamento para macho começa pela aula mais difícil de entender: mulher não é commodity, portanto, não pertence ao homem nem quando é esposa, muito menos quando é ex. É esse tipo de aprendizagem que pode frear o motor da violência doméstica, que é o sentimento de posse”. E finaliza: “Cuidar, dividir, ouvir e gerir o dia a dia nunca foram qualidades de gênero, apenas terceirizadas para a mulher durante séculos. O que o homem precisa é abandonar essa ideia de forja patriarcal e abraçar uma realidade mais justa”.






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