André Zenobini
Crise silenciosa: número de negativados revela motivo da diminuição do comércio
Urge não só a amplificação de campanhas de negociação de dívidas como uma política pública de restabelecimento de crédito para pessoas físicas.
Duas semanas atrás, falei aqui nesta coluna sobre a importância do fomento de um microcrédito para pequenos negócios. Mantenho tudo aquilo que disse, o assunto deve ser tratado como uma política pública. Infelizmente, o sistema bancário não consegue, muito mais porque não quer, ser um elo de fomento de negócios. O crédito não somente é muito caro, como muitas vezes inatingível por aqueles que estão iniciando.
Contudo, naquela coluna tratei somente das pessoas jurídicas. Nos últimos dias, O Litorâneo trouxe ao debate público os dados do Serasa sobre a cidade do Rio Grande. Somente no banco de dados da Serasa estão depositados mais de R$ 562 milhões em dívidas dos rio-grandinos, o que mostra que estamos diante de uma crise silenciosa que exige ação imediata e revela o motivo pelo qual estamos vendo muitas áreas comerciais definharem.
Aquele sentimento entre os comerciantes de que "o dinheiro parou de circular" está comprovado quando mais de metade da população economicamente ativa (acima de 16 anos) está negativada. Como boa parte dessas dívidas são com o sistema financeiro, bancos, financeiras e cartões de crédito, o rio-grandino não está só com a renda comprometida, está com o crédito bloqueado.
Sem crédito, a população passa a se retrair, bem como também fica com a autoestima abalada. Isso conduz o ciclo para uma área viciosa, difícil de sair. Encontrar um ciclo virtuoso para a economia é o papel chave de um sistema de sociedade. Aí que entendo o papel do Estado. Quando os sistemas sociais falham, o Estado precisa aparecer para devolver à população e ao sistema condições de voltarem a girar.
Urge, então, a criação de políticas públicas de fomento de crédito para pessoa física. Mesmo aquela negativada, com subsídio dos fundos públicos. Alguma forma precisa ser dada para tirar a população dessa situação. Os números do Serasa não representam somente uma estatística fria, mas uma realidade dolorosa que afeta milhares de famílias, trabalhadores e pequenos empreendedores que enfrentam dificuldades para manter suas contas em dia, acessar crédito ou retomar sua dignidade financeira.
A inadimplência em massa não é somente um problema individual, já que é um obstáculo ao desenvolvimento local. Quando grande parte da população está negativada, o comércio sofre, os serviços desaceleram e a economia municipal perde força. É por isso que acredito que o Executivo Municipal precisa assumir um papel ativo e estratégico na criação de um programa de fomento de crédito voltado para pessoas físicas negativadas.
Iniciar pelo fortalecimento da renegociação de dívidas. Os programas de renegociação, seja da SERASA, do SCPC ou outros, já existem. Contudo, talvez fosse o momento de reunir num espaço esses atores para facilitar para a população. Um programa local de financiamento, com incentivos e garantias públicas que tornem o crédito mais seguro para os bancos e mais viável para os consumidores, poderia ser uma opção sim. Criar ainda uma comunicação ativa para a população poder conhecer quando, como e onde renegociar. Também pode ser o momento de oferecer para a população um atendimento diferenciado, utilizando a FURG como parceira, para uma consultoria que auxiliasse a população a criar um plano de reestabelecimento financeiro.
Sair de uma crise é mostrar que a cidade do Rio Grande tem potencial para ser referência em inclusão financeira, mas isso exige coragem política, sensibilidade social e visão de futuro. Se o poder público não agir, continuaremos vendo nossos vizinhos afundados em dívidas, sem perspectivas de retomada. Mas se houver vontade de transformar, podemos criar um ciclo virtuoso de recuperação, consumo consciente e crescimento local.
Também é importante dizer que nem tudo depende do poder público. Aqueles que estão nessa situação precisam levantar a cabeça e saber que dá para mudar. Não é fácil, mas com planejamento e dedicação é possível.





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