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Rio Grande,11/05/2026

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A cidade de Iemanjá tomada pela água: 09 de maio de 2024, o dia em que a água chegou ao Rio Grande

Há dois anos, Rio Grande descobria que a tragédia que afetava o Estado também desembocaria na cidade e transformaria o jornalismo local em testemunha diária de uma crise histórica


A cidade de Iemanjá tomada pela água: 09 de maio de 2024, o dia em que a água chegou ao Rio Grande Foto: KSS Drone

Na tarde de 09 de maio de 2024, o Rio Grande percebeu que a enchente não era mais uma imagem distante transmitida da capital. Ela havia atravessado os cerca de 300 quilômetros da Lagoa dos Patos e chegado ao extremo sul do Estado. Antes mesmo de a água dominar completamente as ruas centrais, a cidade sentiu o impacto pelo cheiro. Um odor forte, incomum, misturado à coloração escura da Lagoa, começou a ocupar o Centro Histórico. Não era apenas alagamento. Era a água das cheias do Guaíba entrando na cidade.


Dois anos depois, a data permanece como um divisor de memória coletiva para os rio-grandinos  e também para o jornal O Litorâneo, que acompanhou diariamente o avanço da água, a angústia dos moradores e a lenta transformação da paisagem urbana durante uma das maiores crises climáticas já vividas pelo Rio Grande do Sul.


Quando a enchente ainda parecia distante


Nos primeiros dias de maio, Rio Grande já convivia com alagamentos pontuais causados pelo represamento da Lagoa dos Patos. A água subia devagar, ocupando ruas baixas, avançando sobre calçadas e alterando o cotidiano de bairros historicamente vulneráveis.


Mas ainda existia uma sensação de distância em relação à tragédia que assolava Porto Alegre, Canoas e outras cidades do centro do Estado. O desastre parecia acontecer “lá em cima”, enquanto o extremo sul acompanhava pela televisão imagens de helicópteros, telhados e bairros submersos.


Até que a Lagoa começou a mudar.


A água mudou de cor


Em 08 de maio, a MetSul Meteorologia publicou um alerta pouco comum até para os padrões extremos daquele período: Rio Grande poderia enfrentar uma enchente histórica, sem referência anterior.


O comunicado descrevia um volume “colossal” de água descendo em direção ao sul da Lagoa dos Patos. O que estava acumulado no Guaíba, nos rios e nas barragens do Estado inevitavelmente passaria pelo município antes de alcançar o oceano.


No dia seguinte, a previsão ganhou forma concreta.


As águas que chegaram ao Centro Histórico tinham outro aspecto. Eram mais escuras, carregavam resíduos, vegetação e um cheiro forte de matéria orgânica. Quem caminhava pelas ruas próximas ao cais percebia imediatamente que aquela água não vinha apenas da chuva local.


Na medição da Tábua de Maré da Praticagem da Barra, a Lagoa estava 1,23 metro acima do nível normal.


A enchente havia chegado.


A cidade começou a parar


Naquele 09 de maio, O Litorâneo registrava os primeiros alagamentos diretamente ligados às águas oriundas do Guaíba. Em poucas horas, a rotina urbana começou a se reorganizar em torno da enchente.


Ruas bloqueadas. Transporte coletivo reduzido. Comércios fechando mais cedo. Moradores retirando móveis às pressas. Pessoas observando a água subir em silêncio.


Até aquela manhã, mais de 1,5 mil pessoas já estavam fora de casa. A Prefeitura estimava que até 30 mil moradores poderiam ser atingidos caso o cenário se agravasse.


E agravou.


Nos dias seguintes, o nível da Lagoa continuou avançando. Em 16 de maio, a água atingia 2,71 metros. No Centro Histórico, parte das ruas ficou sob a inundação. Bairros inteiros passaram a funcionar em estado improvisado.


Uma cidade atravessada pela água


A enchente de 2024 não foi apenas um episódio meteorológico em Rio Grande. Ela alterou a experiência cotidiana da cidade.


A água interferia em tudo: no deslocamento, no trabalho, no cheiro das ruas, no silêncio das noites, na circulação das pessoas.


Durante quase um mês, o Centro Histórico conviveu com a presença permanente da Lagoa. Em alguns pontos, ela deixava de parecer margem e assumia aspecto de continuação da própria cidade.


Enquanto isso, bairros como Navegantes, Cidade Nova, Mangueira, Lar Gaúcho e ilhas do município conviviam diariamente com remoções, perdas materiais e insegurança.


Segundo a Defesa Civil, cerca de 70 mil pessoas foram afetadas direta ou indiretamente pela cheia.


Depois da água, veio o excesso


Quando a Lagoa finalmente começou a recuar, no início de junho, a cidade revelou outro retrato do desastre.


As ruas passaram a acumular móveis destruídos, colchões encharcados, eletrodomésticos inutilizados e sacos de lixo espalhados pelas calçadas. O Centro virou um corredor de descarte.


A enchente deixava de ser apenas imagem de inundação e passava a ser também imagem de sobra: o que a água estragou, expulsou ou tornou impossível manter.


O jornalismo local em estado de emergência


Durante aqueles dias, informar virou uma operação contínua.


O Litorâneo passou a acompanhar em tempo real o avanço da Lagoa dos Patos, os boletins da Defesa Civil, os alertas meteorológicos, a situação dos abrigos e os bloqueios espalhados pela cidade.


Mais do que noticiar, o jornal precisou funcionar como ferramenta prática para uma população tentando entender o que acontecia. As medições da Lagoa passaram a orientar decisões cotidianas: sair ou não de casa, erguer móveis, abandonar o imóvel, buscar abrigo.


Em uma enchente marcada também pelo excesso de desinformação nas redes sociais, a atualização permanente dos dados virou parte da rotina de milhares de moradores.


A tragédia que revelou um problema maior


Dois anos depois, os estudos sobre a enchente ajudam a compreender a dimensão do que aconteceu.


Pesquisas conduzidas pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), com participação da Universidade Federal do Rio Grande e da Universidade Federal de Pelotas, apontam que eventos extremos como o de maio de 2024 podem se tornar até cinco vezes mais frequentes nas próximas décadas.


As conclusões também evidenciam falhas estruturais: sistemas de proteção sem manutenção adequada, monitoramento insuficiente e ausência de cultura preventiva.


O desastre deixou de ser interpretado apenas como exceção climática. Passou a ser encarado como antecipação de um futuro possível.


A cidade nunca mais olhou para a Lagoa da mesma forma


Desde então, cada período de chuva intensa provoca um movimento automático de atenção em Rio Grande.


A população passou a acompanhar boletins hidrológicos, previsões de vento e medições da Lagoa com uma familiaridade que antes não existia. Termos técnicos entraram no cotidiano. O medo também.


Em julho de 2025, um novo decreto de emergência mostrou que a memória da enchente ainda não havia deixado a cidade.


Porque a água recuou. Mas a sensação de vulnerabilidade permaneceu.


09 de maio virou memória coletiva


Há datas que entram para a história por um grande acontecimento. Outras entram pela sensação que deixam.


O 09 de maio de 2024 ficou marcado em Rio Grande pelo momento em que a cidade percebeu que a tragédia estadual também tinha endereço local.


Primeiro veio o cheiro.


Depois, a água.


E então veio a compreensão, lenta, pesada e irreversível, de que o extremo sul do Estado também estava dentro da enchente.

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