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Rio Grande,11/05/2026

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Reparação histórica: 67 artefatos sagrados do batuque do RS seguem aprisionados no Museu de Berlim

Comissão segue lutando por repatriação dos artefatos, tanto simbólica quanto física


Reparação histórica: 67 artefatos sagrados do batuque do RS seguem aprisionados no Museu de Berlim Foto: Divulgação

Uma coleção de 67 artefatos sagrados da cultura do batuque do Rio Grande do Sul segue exposta no Museu de Berlim, na Alemanha. Chamada de “Coleção Pietzcker” pelos alemães, os materiais foram recolhidos durante repressão policial a uma cerimônia religiosa, em 1880, na região sul do estado. 


Uma comissão, a qual conta com o município do Rio Grande em sua linha de frente, têm tomado atitudes que buscam repatriar os artefatos, tanto simbolicamente quanto materialmente. Renomeando a coleção para “Coleção Batuque”, historiadores e frentes políticas seguem rumo a ato de reparação histórica. 


Até o momento, as ações partem do estudo prévio, passam pelo envio de um protocolo de solicitação institucional ao Governo Federal para abertura do processo de repatriação de artefatos sagrados do Batuque do Rio Grande do Sul e viram exposição na Fototeca Municipal, recebendo a ministra da Igualdade Racial, Rachel Barros. 


Como foi parar na Alemanha?


Ainda no final do século XIX, a repressão policial e social sofrida pelos praticantes de religiões afrodescendentes era violenta e marcada por perseguição. 


Em um dos atos de maior recordação, no ano de 1880, uma ação policial reprimiu de forma violenta uma cerimônia religiosa de matriz africana, que acontecia na região sul do Rio Grande do Sul, sem confirmação em relação à cidade do ocorrido. Em tal episódio, os policiais presentes “apreenderam” diversos artefatos da cultura, somando cerca de 67. 


Posteriormente, os artefatos sagrados da religião foram comprados por um comerciante alemão, Wilhelm Pietzcker, o qual doou os materiais ao Museu Etnológico de Berlim, onde os mesmos permanecem até os dias atuais, longe de suas raízes e com seu axé aprisionado. 


Chegando ao museu, a coleção ganhou o nome de “Coleção Pietzcker”, homenageando o comerciante alemão, o qual doou os artefatos saqueados para a instituição. Tal nomeação descaracteriza as questões culturais e originárias dos materiais sagrados. 


Dívida histórica


O município do Rio Grande é o berço do estado. A cidade hoje portuária serviu como principal ponto de desporto de negros e negras que vieram na condição de escravizados. Mais de 80% dos que foram postos em condições desumanas no Rio Grande do Sul, tiveram como porta de entrada no Brasil a nossa cidade. 


Sendo assim, Rio Grande sofreu grande influência cultural desses povos, que trouxeram consigo nos navios os seus conhecimentos, práticas e religiões, fazendo com que o município seja amplamente reconhecido como o Berço Nacional do Batuque. 


Frente a tais fatos, religiosos e estudiosos da área consideram que a cidade possui um débito com a população, é o que comenta Chandler Siqueira, coordenador da Coordenadoria Municipal de Políticas de Promoção da Igualdade Racial de Rio Grande, “Rio Grande tem um débito muito grande com essa população, não é uma questão de querer, mas de necessitar ser referências nas políticas públicas afirmativas, de caráter reparatórias e/ou compensatórias ao crime de lesa-humanidade que foi a escravidão negra transatlântica”. 


O mesmo aponta o município não só como local de surgimento nacional do batuque, mas também como Berço Estadual da Umbanda, visto que a primeira terreira de umbanda do Estado surge aqui e se mantém em funcionamento até hoje, o Reino de São Jorge, fundado por Otacílio Charão. 


O que foi feito? 


O projeto tem estudos iniciados ainda em 2016. A partir de escavações arqueológicas realizadas na região de Pelotas, nas proximidades das charqueadas São João. Com essas investigações, foram identificados diversos artefatos com forte carga simbólica vinculada às religiões de matriz africana, contando inclusive com a participação de representantes dessas tradições no processo de reconhecimento dos objetos.


Como primeira ação, a comissão passou a mudar o nome da coleção simbolicamente, deixando para trás a “Coleção Pietzcker” e passando a reconhecer como “Coleção Batuque”. 


Rodas de conversa e debates expuseram em primeira mão as ideias da comissão e mostraram a realidade por trás dos artefatos, reforçando a importância da repatriação simbólica e material deles. 


Como marca importante na trajetória da “Coleção Batuque”, o município do Rio Grande protocolou solicitação institucional ao Governo Federal para abertura do processo de repatriação de artefatos sagrados do Batuque do Rio Grande do Sul.


Tal processo foi feito no dia 21 de março, Dia Nacional das Tradições das Raízes de Matrizes Africanas e Nações do Candomblé e também o Dia Internacional para a Eliminação da Discriminação Racial, marcando a data com um ato de grandeza e reparação. 


A ação mais recente do projeto foi a exposição “Coleção Batuque aprisionada na Alemanha: Uma Restituição Histórica”, que está aberta para visitação na Galeria de Exposições da Fototeca Municipal Ricardo Giovannini, disposta ao público desde o dia 30 de abril e o recebendo até 11 de junho de 2026.


Outro passo importante e que reforça o caráter de importância imposto ao projeto foi a recente visita da ministra da Igualdade Racial, Rachel Barros, que veio ao município do Rio Grande conhecer a exposição que está na Fototeca Municipal. 


O que falta? 


Após o envio da solicitação institucional ao Governo Federal para abertura do processo de repatriação de artefatos sagrados do Batuque do Rio Grande do Sul, a comissão de frente do projeto aguarda a atitude do Governo Federal, o qual irá intermediar o processo internacional. 


“O processo precisa partir do Governo Federal junto aos órgãos internos e internacionais, como o Itamaraty, embaixadores, Ministério da Cultura, Direitos Humanos, o próprio governo da Alemanha, o Museu em Berlim”, afirma Chendler. 


Casos que inspiram


Ao ser questionado acerca da expectativa para a consolidação da repatriação simbólica e física dos artefatos, Chendler comentou que será um processo demorado, de médio à longo prazo, e citou outro caso que, apesar da demora, teve conclusão favorável. 


“A expectativa é de que seja um processo de médio/longo prazo. Tendo como parâmetro o processo semelhante do Manto dos Tupinambás, que levou duas décadas para sua efetivação”, comenta o coordenador. 


Voltando ao estado, onde ficará? 


Sendo tratado como ideal lúdico a recolocação dos artefatos em seus terreiros e comunidades tradicionais de origem, a comissão acredita na possibilidade da criação de um espaço de salvaguarda das histórias e memórias desses povos e comunidades tradicionais, funcionando como um museu étnico, mas no local de sua origem e perto de suas raízes.


“Esses artefatos deveriam estar em um museu daqui, espaço de salvaguarda das histórias e memórias desses povos e comunidades tradicionais. Inclusive dessas histórias de repressão e criminalização. Para que não se esqueça e jamais aconteça”, afirma Chendler Siqueira. 

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