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Rio Grande,05/07/2026

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Ique de la Rocha

Uma agradável tarde entre os “imortais”

Dá até para conversar com Machado de Assis.


Uma agradável tarde entre os “imortais”

Quero compartilhar com meus leitores a agradável tarde que passei recentemente, no Rio de Janeiro, ao visitar a Academia Brasileira de Letras. Ela situa-se a duas quadras da famosa Cinelândia, no Centro da cidade, e a uma quadra do Consulado Geral dos EUA na “Cidade Maravilhosa”, onde tive o desprazer e a vergonha, como brasileiro, de ver faixas na praça defronte pedindo intervenção americana no Brasil. Isso mesmo. Em nosso país os dicionários vão ter de se atualizar e mudar o significado da palavra “patriotismo” para “traição”, que ficará mais adequado ao triste momento que estamos vivendo.

Na ABL fui ao encontro do jornalista e escritor Ruy Castro, colunista permanente da privilegiada página de Opinião do jornal “Folha de S.Paulo”. Ele também é o famoso autor das biografias de Carmem Miranda (“Carmem”), Nelson Rodrigues (“O anjo pornográfico”) e Garrincha (“A estrela solitária”), de muitos outros livros e romances com sucesso no Brasil e exterior. 

A agradável tarde não foi apenas por essa visita. Já tinha estado naquela casa anteriormente e a forma acolhedora com que se é tratado também merece um registro. A gente pode imaginar que uma Academia de Letras tenha um aspecto sisudo mas, muito ao contrário, desde os seguranças, passando pelo pessoal da recepção e os próprios “imortais”, fica-se muito à vontade. Cito como exemplo o escritor Domício Proença Filho, já com idade avançada, que esbanja simpatia e a cordialidade é uma marca registrada na instituição que tanto orgulha nosso país.

Machado de Assis foi o principal fundador e primeiro presidente da ABL, fundada em 1897. Graças à tecnologia, tem uma máquina que não sei o nome, onde é possível simular uma conversa com nosso grande escritor. Achei muito legal uma adolescente levada pela mãe, visivelmente apaixonada por literatura, que travou uma conversação dizendo-se triste pela morte de Helena. No romance “Helena” a protagonista morre subitamente nos braços de seu meio-irmão, Estácio, logo após ele lhe dar um beijo. A morte trágica ocorre após uma cavalgada secreta em que ela busca seu suposto pai, encerrando o drama com a revelação de que eles não eram irmãos. O escritor respondeu a ela que lamentava a dor que essa morte tinha lhe causado e mais algumas palavras gentis. Os olhos da menina brilhavam. 

Minhas irmãs, a Dóris e a Mila, também se apresentaram ao eminente escritor, que desejou-lhes boas vindas ao tomar conhecimento de que eram turistas e do Rio Grande do Sul. Só faltou ele dizer: “Conheço Rio Grande. A comunidade tem de apoiar nossa Bibliotheca Rio-Grandense!”. Este trecho obviamente é um pequeno comercial que inventei por uma justa causa.  

A ABL situa-se em ampla e valiosa área na rua Presidente Wilson. A sede antiga está em reforma, mas foi construído um anexo moderno, de oito pavimentos, todo envidraçado, e ao lado um moderno e grande edifício comercial, com uns 20 andares, denominado Palácio Austregésilo de Athayde, em homenagem ao seu ex-presidente, creio que o mais longevo de todos. Este prédio sedia escritórios de importantes empresas e também tem espaço para atividades culturais da ABL. Pelo que me informaram, a receita da instituição vem dessas locações comerciais.

A Academia Brasileira de Letras é presidida pelo jornalista Merval Pereira e tem entre seus membros muitos famosos, como Míriam Leitão, Gilberto Gil, Fernanda Montenegro, Nélida Piñon, Lygia Fagundes Telles, Sérgio Paulo Rouanet, Ignácio de Loyola Brandão, Fernando Henrique Cardoso, José Sarney e inúmeros outros nomes de relevância. Também de fundamental importância para as atividades daquela Casa é o trabalho de Lúcia Deppe no assessoramento aos “imortais”. São 40 membros efetivos e perpétuos, mais 20 membros correspondentes estrangeiros. Entre os “peso-pesados” estrangeiros, já participou da ABL o escritor português José Saramago e participam o peruano Mário Vargas Llosa e o ex-presidente do Uruguai, Júlio Maria Sanguinetti.    

Sugiro a todos que forem ao Rio de Janeiro para conhecerem a nossa ABL e também o majestoso Real Gabinete Português de Leitura, sempre movimentado por turistas, inclusive muitos jovens, talvez a maioria. Para mim é sempre impactante entrar naquele recinto, tanto que dessa vez entrei e saí três vezes para ter essa sensação de forma triplicada. Se alguém percebeu, deve ter achado estranho ou imaginado que na minha casa o mais certo toma sopa de garfo. Mas vale a pena!



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