Ique de la Rocha
Copa de 70 serve de exemplo para nossos atletas
É preciso ter orgulho em representar o Brasil e “entrega” dentro do campo
A Copa do Mundo iniciou em 1930, vencida pelo Uruguai, e a disputa dava ao campeão a Taça Jules Rimet, feita em ouro e com a denominação do presidente da Fifa à época. O país vencedor tinha a posse provisória, pois o regulamento determinava que a posse definitiva ficaria com a Seleção que conquistasse o torneio em três oportunidades. A disputa pela Jules Rimet tornou a Copa de 1970 de grande importância. Brasil, Itália e Uruguai tinham dois títulos. Portanto, com possibilidades reais dessa conquista inédita se concretizar.
O Brasil havia vencido a competição em 1958 e 1962. Tinha fracassado em 66 na Inglaterra, mas era favorito em 1970. Possuía Pelé, o maior do mundo, e craques de altíssimo nível como Clodoaldo, Gerson, Rivelino, Tostão e Jairzinho. Os brasileiros se mobilizaram e os mexicanos, donos da casa, também abraçaram nossa Seleção. Naquela época os jogadores não ganhavam nem 30% do que é pago hoje, mas retribuíam o orgulho de vestirem a camiseta Canarinho com muita dedicação e “entrega” dentro do campo. Nelson Rodrigues dizia que nossa Seleção era “a Pátria de chuteiras”.
Em 1970 eu tinha 12 anos de idade e não ligava para futebol. Mesmo assim, não tinha como fugir do contágio verde-amarelo. Muitas ruas eram embandeiradas, as vitrines tinham decoração alusiva à Copa. Nossa casa recebia parentes para engrossar a torcida, fazendo jús à letra da música “Prá frente Brasil”, de Miguel Gustavo, que dizia “todos juntos na mesma emoção”. Nem todos tinham TV, então era comum essas reuniões até mesmo entre a vizinhança.
Lembro de se fazer “simpatias” durante os jogos para o Brasil vencer, como amarrar o pé da mesa com um pano. E a Seleção venceu todos os jogos, além de aplicar 4x2 na final contra a Itália. Ao fim de cada partida, as famílias iam para as ruas comemorar e quem tinha carro desfilava pela cidade provocando um forte “buzinaço”. Não preciso dizer que na final o Brasil todo fez uma grande festa, que prosseguiu até a chegada da delegação brasileira no Rio de Janeiro. A alegria foi grande, inclusive para os líderes do regime militar, segundo a oposição, pois a euforia desviou a atenção de nossos problemas internos e da dura repressão que havia na época.
Cabe lembrar que em 1970 a TV era em preto e branco. Tinha gente que colocava papel celofane na tela para dar um “colorido” na imagem, que também não tinha a qualidade de hoje. Geralmente era com “chuvisco” mas, nesse caso, nada que um BomBril colocado na antena não resolvesse. Meses após a conquista no México os cinemas apresentavam documentários sobre a Copa, que enchiam as sessões, pois as pessoas queriam rever os gols e os momentos importantes em inéditas imagens coloridas.
Quarenta anos após a primeira Copa do Mundo, um país conquista em definitivo a Taça Jules Rimet. O valioso troféu ficou na sede da então CBD, atual CBF, que “deixou uma réplica trancada num cofre e a taça original exposta sem muita segurança”, segundo o Wikipedia. Em 20 de dezembro de 1983 a Jules Rimet foi roubada e depois ficou se sabendo, para assombro de todos, que o mais importante símbolo das conquistas futebolísticas do Brasil havia sido derretido. Em 86 a Fifa ofereceu à CBF uma réplica, que encontra-se com os troféus da entidade. Espera-se que, dessa vez, guardada com mais segurança.
Vamos torcer para que nossos representantes de hoje incorporem o espírito e a disposição dos atletas do passado. Eles não têm a obrigação de trazer o título, mas dentro do campo precisam mostrar que estão focados nos jogos, mais do que nos cortes de cabelo e contratos milionários, para representarem bem o futebol brasileiro.






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