Ique de la Rocha
Carnaval na maternidade
Qual mãe ou pai gostaria que seu filho nascesse numa sexta-feira 13?
Na vida nem sempre tudo sai como planejamos. Existe uma força superior, acredito, que pode nos desviar de um objetivo, por mais focados que estejamos. O meu nascimento pode ser um exemplo do que estou dizendo. Meu pai, um rio-grandino para lá de apaixonado, não admitiria que um filho nascesse em outro lugar que não fosse Rio Grande, no extremo sul do Rio Grande do Sul e do Brasil, a pouco mais de 200 quilômetros do Chuí, no Uruguai. E quando falo na cidade do Rio Grande, sei que ele gostaria que eu citasse obrigatoriamente: a cidade mais antiga do Estado, onde iniciou o Rio Grande do Sul; terceiro maior porto do Brasil; terra de Tamandaré, o Patrono da Marinha, e de Marcílio Dias, o Imperial Marinheiro.
Uma situação inesperada fez com que eu fosse nascer na vizinha cidade de Pelotas, a 56 quilômetros de distância, justamente a cidade que era tida como rival de Rio Grande, rivalidade essa muito manifestada nas partidas de futebol do passado e mesmo em disputas políticas.
Tudo aconteceu porque minha mãe, que é pelotense, decidiu passar o carnaval de 1959 na Princesa do Sul. A barriga já estava bem dilatada, mas a previsão médica era de que o nascimento ficaria para depois do carnaval, aliás, como tudo nesse país. Naqueles tempos a folia pelotense acontecia na 15 de Novembro, uma rua estreita, típica de cidades antigas e até hoje uma das mais centrais de Pelotas.
Era o dia 13 de fevereiro e outro fato curioso, para não dizer assustador para os mais supersticiosos: tratava-se de uma sexta-feira. Agora me digam: qual mãe ou pai gostaria que seu filho nascesse numa sexta-feira, 13? E tive a certeza de que minha mãe também não gostou da data de meu nascimento quando, certa vez, já com idade bem madura, observei em tom de brincadeira: “Só falta me dizer que nasci numa sexta-feira 13!” e ela, respondeu timidamente com ar desiludido: “pois é!” Só não sei se também era uma noite de lua cheia.
Mas, continuando e concluindo a história de como me tornei pelotense, o que, por sinal, muito me orgulha, minha mãe estava na sacada assistindo aos desfiles com familiares, na rua Quinze de Novembro, próximo ao antigo e saudoso Diário Popular. De repente passou a sentir dores cada vez mais fortes e até para sair do sobrado onde estava e dirigir-se ao hospital foi um parto, tal a multidão que se aglomerava nas calçadas. Felizmente, ela conseguiu chegar na Beneficência Portuguesa e, superando todas as agruras e dores, me concebeu a vida, o que sou muito grato.
Imagino que ao chegar no hospital, já no limite de suas forças, tenha dito: “Ah, Vou ter um troço!” E teve, mas se foi assim, faltou-lhe coragem para me contar.




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