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Rio Grande,14/02/2026

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Ique de la Rocha

“Nunca se falou tanto e se pensou tão pouco”

Internet está cheia de gente despreparada, mas elas acham que sabem tudo.

Ique de la Rocha


“Nunca se falou tanto e se pensou tão pouco”

Internet está cheia de gente despreparada, mas elas acham que sabem tudo.


Antigamente ficávamos de boca calada, quando numa roda de conversa, se falava de determinado assunto que a gente desconhecia. Tínhamos vergonha de dizer asneira ou passar por ridículo. Hoje, com a internet, a situação mudou. Vemos comentários de pessoas sobre tudo, mesmo que sem o mínimo preparo delas. Os que antes se consideravam “apolíticos” agora querem impor sua ideologia, embora boa parte nem conheça o que está defendendo ou mesmo criticando. Acham que sabem de tudo. Nunca estudaram Ciência, Medicina, mas querem saber mais que cientistas e médicos. Muitos não leram um livro, nem sequer apresentam grau de instrução considerável, mas não aceitam opiniões em contrário, seja de que assunto for.  

A ignorância está sendo normalizada. Inclusive uma consequência grave disso é a tentativa de desvalorizar a Cultura, que tem tudo a ver com a identidade de um povo, a liberdade de pensamento e de expressão. Isso que o Brasil, se não for o maior, é um dos países culturalmente mais ricos do mundo, mas isso vai ser tema de outro comentário.

Hoje a maioria das pessoas não busca o conhecimento, a informação. A internet, que deveria ser um ótimo meio para aprendermos mais, está tomada por “influencers” que abordam baboseiras, futilidades ou simplesmente desinformam. O pior, é que essa gente tem milhões de seguidores. Os internautas, especialmente os jovens, que mais acessam as redes sociais, simplesmente são vítimas disso tudo, pois estão expostos aos manipuladores, que diariamente jogam nas redes um turbilhão de mentiras. E a gente se pergunta: onde tudo isso vai parar?


A tirania do achismo; o colapso intelectual

Na edição de quinta-feira passada (5/02) do jornal “A Tribuna”, de Santos, a página de Opinião trouxe um artigo, intitulado, “A tirania do achismo: o colapso intelectual”, escrito por Henrique Matthiesen, formado em Direito e pós-graduado em Sociologia. Ele aborda este assunto com muita propriedade. Praticamente tudo o que penso está nesse conteúdo e certamente muitos leitores irão também concordar com o excelente texto desse articulista, que reproduzo abaixo:

“Vivemos tempos em que a ignorância deixou de ser um estado provisório para tornar-se um projeto cultural. A era contemporânea, embriagada por telas luminosas e algoritmos que massageiam o ego, produziu uma nova forma de tirania: a tirania do achismo. Trata-se de um regime difuso, porém absoluto, no qual qualquer opinião, por mais rasa ou delirante, busca legitimidade apenas porque alguém “sentiu que é assim”. A razão foi abandonada, a reflexão acabou esvaziada, e o conhecimento, antes patrimônio precioso da humanidade, passou a ser visto como incômodo.

Nunca se falou tanto e se pensou tão pouco. Nunca houve tanto acesso à informação e tão escassa capacidade de interpretação. O século 21 demonstra que dados não formam mentes e que tecnologia, sem profundidade, não emancipa, apenas atrofia. Somos herdeiros de uma tradição intelectual que produziu Sócrates, Descartes, Kant e Hannah Arendt, mas escolhemos seguir influenciadores que confundem convicção com pensamento e frases de efeito com reflexão.

A tirania do achismo floresceu onde a leitura definhou. A geração que despreza livros tornou-se especialista em tudo. Debatem política sem conhecer história, opinam sobre ciência sem compreender método e discutem ética sem jamais terem exercitado reflexão moral. Confundem autenticidade com sabedoria e coragem com insolência. O vazio transformou-se em estética, e a futilidade, em virtude socialmente celebrada.

As redes sociais consolidaram esse cenário. Converteram-se em arenas onde o grito vale mais que o argumento e a arrogância supera a dúvida. Nesse ambiente, a erudição passou a incomodar. Quem lê irrita, quem pensa provoca rejeição, quem estuda parece deslocado. Valoriza-se a velocidade, não a maturação; o instantâneo, não a elaboração. A sociedade apressada e intelectualmente subnutrida prefere slogans a conceitos, memes e argumentos. Com isso, a própria noção de verdade dissolve-se.

O achismo é tirânico porque é soberbo. Não dialoga, mas impõe. Não investiga, sentencia. É o triunfo do ego sobre a inteligência. A tecnologia concedeu a milhões a ilusão de autoridade intelectual, mesmo sem lastro algum. A ignorância, antes vergonha, converteu-se em ornamento. Vivemos o paradoxo cruel de uma era saturada de informação e deserta de sabedoria. Sem leitura, não há memória; sem memória, não há pensamento; sem pensamento, não há civilização. A tirania do achismo não é apenas um fenômeno cultural, mas uma ameaça civilizatória.

Se o século 21 corre o risco de ser uma caricatura da inteligência humana, isso não se deve à falta de recursos, mas à recusa do esforço que o pensamento exige.”



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