Ique de la Rocha
Iemanjá, Navegantes e o camarão
Veraneio está no seu melhor momento e Procissão de Navegantes completará 215 anos de existência.
Ique de la Rocha
Iemanjá, Navegantes e o camarão
Veraneio está no seu melhor momento e Procissão de Navegantes completará 215 anos de existência.
Estamos na véspera de mais uma grande Festa de Iemanjá, nossa maior manifestação de fé religiosa, que coincide com o maior evento religioso da vizinha São José do Norte, a não menos bela Festa e Procissão Marítima de Nossa Senhora dos Navegantes, sendo que esta última iniciou em 1811. Portanto, são 215 anos de iniciativa da comunidade nortense.
Costumo dizer que este é o momento máximo de nosso veraneio. Hotéis e pousadas lotam nesse período e é possível avistar diversos ônibus de excursão provenientes de vários lugares, inclusive de Santa Catarina, fazendo o papel inverso de muitos gaúchos e turistas do Prata que nessa época dirigem-se ao vizinho estado.
Neste domingo será possível ver, desde as primeiras horas da manhã, grande número de pagadores de promessa dirigindo-se ao Cassino, muitos deles a pé. E na noite de 1º para 2 de fevereiro quase uma centena de centros e mais de 100 mil pessoas são aguardadas na beira da praia para a homenagem à Iemanjá. Já no dia 2 de fevereiro a Festa de Nossa Senhora dos Navegantes acontecerá em São José do Norte, sendo seu ponto alto a procissão marítima, que às 16h sai da vizinha cidade, contorna a Ilha da Base, passa frente ao Porto Novo, Porto Velho, Centro Histórico até as imediações do Rio Grande Yacht Club. Também atrai dezenas de milhares de fiéis da Igreja Católica, da Umbanda e dos cultos afro. A programação religiosa de São José do Norte tem missas na Matriz de São José e muitas barraquinhas com artesanato, bebidas e lanches ao redor da praça principal.
Sempre nessa época existe uma ameaça de chuva, que nem sempre cai na Festa de Iemanjá. Novamente o tempo tem se “armado”, mas vamos torcer para que, se houver chuva, mesmo assim não tire o brilho do evento.
Nossa Senhora, a mãe de Jesus, na Umbanda e cultos afro foi sincretizada com Iemanjá, mas cabe salientar que, na verdade, Iemanjá é o orixá feminino das águas (doce e salgada). Na Umbanda e no Candomblé é reverenciada como a “mãe de todos os orixás” e a Rainha do Mar. Simboliza a família, fertilidade, o equilíbrio emocional e é associada ao cuidado, amor e prosperidade. Sua cor é azul e, entre as oferendas, constam flores brancas, espelhos, perfumes e espumante.
A Festa de Iemanjá e a Procissão Marítima de Nossa Senhora dos Navegantes são momentos de fé, de amor e de união das pessoas, onde fica demonstrado que crenças diferentes podem viver harmonicamente. Afinal, Deus é um só.
Que continue sendo assim, principalmente nesses tempos em que vemos algumas “lideranças religiosas” inescrupulosas atacando religiões por serem diferentes das suas e demonizando-as. São os falsos profetas, alertados por Cristo, que exploram o fanatismo para obterem lucros financeiros e eleitorais. Mas esses não são de Deus.
Olha o camarão!
Também nessa virada de mês outro fato importante para nosso município é a abertura da safra do camarão. Quando a safra é boa toda a cidade ganha, pois movimenta nossa economia. Milhares de pescadores e comerciantes lucram com a venda do crustáceo que, na opinião de muitos, inclusive deste que vos fala, é um dos melhores alimentos. Cai bem na massa, na pizza, com arroz, à baiana, até mesmo um pastel e fiquei sabendo que o Serginho Lanches, um dos mais tradicionais da Cidade Nova, já está oferecendo o xis de camarão. Outras lancherias deveriam fazer o mesmo (deve ter quem faça, mas desconheço), pois tem tudo a ver com a nossa terra.
Boas recordações
Quando cito a bela Procissão Marítima de Nossa Senhora dos Navegantes, lembro do grande jornalista e amigo Iberê Marchiori, que aqui brilhou profissionalmente nos anos de 1970 na sucursal da saudosa Companhia Jornalística Caldas Junior (jornais Correio do Povo, Folha da Tarde, Folha da Manhã e rádio Guaíba). Aquela sucursal era a mais forte redação da cidade com excelentes profissionais e Iberê se destacava por sua competência e caráter. Uma pessoa corretíssima, agradabilíssima, muito bem vista na comunidade e também muito querido no SC Rio Grande, quando na gestão de Eduardo Lawson atuou voluntariamente na assessoria de comunicação do clube. Atualmente aposentado do Tribunal de Contas do Estado (TCE), ele reside em Pelotas e veraneia na praia do Hermenegildo, em Santa Vitória do Palmar, que em extensão é maior que a praia do Cassino. Ainda tenho o prazer e o privilégio de me corresponder com ele via whattsapp.
A procissão de Navegantes me faz lembrar do Iberê, porque certa vez, ainda nos anos de 1970 e em conversa descontraída, ele me observava que tinha eventos que os acontecimentos pouco mudavam e até se poderia repetir os textos jornalísticos todos os anos pois a descrição seria sempre a mesma. E me descreveu minuciosamente, como exemplo, a procissão marítima: “Às 16 horas a procissão saiu do cais de São José do Norte, capitaneada por um barco de pesca que levava a imagem de Nossa Senhora dos Navegantes, uma banda de música, lideranças religiosas e autoridades. Acompanhado de grande número de embarcações, o cortejo contornou a Ilha do Terrapleno (ou Ilha da Base). Ao passar frente ao Porto Novo, a Santa foi saudada com os apitos dos navios lá atracados. A partir dos clubes Honório Bicalho e Regatas, em direção ao Centro Histórico do Rio Grande, milhares de fiéis acenavam da terra com lenços brancos. Muitos aproveitavam para fazer seus pedidos, agradecimentos ou entregar oferendas. Além dos barcos que acompanhavam a procissão, outro expressivo número de pequenas embarcações de pescadores aguardava no canal a passagem da Santa. Nas proximidades do Yacht Club a procissão fez o retorno e seguiu o trajeto inverso até São José do Norte, onde a festividade teve prosseguimento por terra”. Era mais ou menos assim.
Uma historinha
Claro que o Iberê nunca fez texto de improviso, mas eu, certa vez, no jornal Rio Grande, fazia cobertura de carnaval, não lembro de que ano. Só sei que foi na década de 1970. Era um sábado à tarde de verão e à noite estava prevista a coroação do Rei Momo e da Rainha do Carnaval no Cassino, na avenida Rio Grande, frente ao Hotel Atlântico. Como o jornal de domingo era elaborado com antecedência, decidi fazer o texto de improviso, à tarde, antes do acontecimento. Afinal, eu já tinha os nomes do Rei Momo e da Rainha, as fotos deles e o evento seguiria a programação pré-estabelecida.
Aí escrevi um texto curto, mais ou menos assim: “Rio Grande já vive o carnaval de (não lembro o ano). Na noite de ontem (o jornal iria circular no domingo), na avenida Rio Grande, no palanque armado defronte ao Hotel Atlântico, perante um grande público, aconteceu a solenidade de coroação da Rainha do Carnaval (não lembro o nome) e do Rei Momo (também não lembro). Na ocasião, o prefeito (acho que era Rubens Emil Correa) entregou a Chave da Cidade ao Rei Momo e desejou a todos, foliões e entidades carnavalescas, um evento com muita alegria. Após a coroação, o clima do carnaval tomou conta do Cassino com a apresentação das baterias das principais escolas de samba da cidade”.
O problema foi que ocorreu um imprevisto: na noite do sábado desabou um temporal no Cassino e a coroação teve de ser cancelada. De qualquer forma, eu e o jornal já tínhamos coroado a Corte do Carnaval daquele ano.
Que a nova geração de jornalistas não siga o meu exemplo.




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