André Zenobini
Entre o orgulho e a vaidade, Rio Grande pode ficar sem voz
Em vez de construir consensos mínimos, vemos uma verdadeira proliferação de candidaturas locais. São muitos nomes em praticamente todos os campos políticos.
A eleição de 2026 talvez seja uma das mais importantes para o futuro da Cidade do Rio Grande. Não apenas pelo cenário estadual e nacional, mas porque ela definirá quem terá a responsabilidade de defender os interesses da nossa cidade na Assembleia Legislativa e na Câmara dos Deputados.
E é justamente aí que mora a minha preocupação.
Rio Grande tem cerca de 200 mil habitantes e aproximadamente 150 mil eleitores. Parece muito. Mas, em uma eleição proporcional, isso representa apenas uma pequena parcela de um universo de milhões de votos espalhados por todo o Rio Grande do Sul. Nas disputas para deputado estadual e deputado federal são centenas de candidatos disputando a atenção do mesmo eleitorado.
Por isso, sempre acreditei que o voto local precisa ser valorizado. Não estou dizendo que o eleitor deva escolher alguém apenas porque nasceu em Rio Grande. Competência, preparo e compromisso continuam sendo essenciais. Mas também é preciso reconhecer que nenhuma cidade cresce sem representação política forte.
Contudo, parecemos insistir em cometer o mesmo erro
Em vez de construir consensos mínimos, vemos uma verdadeira proliferação de candidaturas locais. São muitos nomes em praticamente todos os campos políticos. Projetos pessoais, interesses partidários e pela expectativa de ocupar espaço no cenário eleitoral, agora ou nas próximas eleições, impedem de enxergamos o básico, já que no fim das contas, todos disputam o mesmo eleitor.
E quando isso acontece, quem costuma vencer não é Rio Grande. É comum ouvirmos, durante a campanha, que "quanto mais candidatos, melhor para a democracia". Concordo. A democracia vive da pluralidade de ideias mas representação política não é apenas um exercício de pluralidade. Ela também exige estratégia.
Uma cidade que pulveriza seus votos entre muitos candidatos corre o risco de não eleger ninguém. E isso já aconteceu antes. Enquanto outros municípios concentram esforços em nomes competitivos e conseguem formar bancadas influentes, Rio Grande muitas vezes termina o processo eleitoral sem ter o que comemorar.
Depois das urnas, todos voltam a fazer a mesma pergunta: por que Rio Grande perdeu espaço? A resposta costuma estar no espelho. Somos especialistas em reclamar da falta de atenção do Estado e da União. Reclamamos da demora das obras, da falta de investimentos, dos problemas do Porto, da saúde, da infraestrutura e da segurança pública. Mas quem defenderá essas pautas se não tivermos representantes com identidade e compromisso com a cidade? Saibam que secretários de Estado e ministros do Governo Federal tendem sempre a priorizar os pedidos dos legisladores.
Não acredito que o eleitor deva abrir mão da sua convicção política. Cada um tem o direito de escolher o campo ideológico com o qual mais se identifica. Isso faz parte da democracia. O que me preocupa é quando a vaidade e o orgulho superam o interesse coletivo e vemos projetos individuais falarem mais alto do que um projeto de cidade.
Eleição proporcional não se vence apenas com boas intenções, ela precisa de inteligência coletiva e senso de comunidade. E talvez esteja justamente aí a nossa maior dificuldade. Na eleição das nossas vidas, precisamos pensar em qual Rio Grande queremos estar daqui pra frente.





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