André Zenobini
É hora de repensar a Zona Azul em Rio Grande
Publicação da empresa Pacotão nas redes sociais despertou o debate sobre o reposicionamento do modelo de estacionamento.
Uma reflexão publicada recentemente pela empresa Pacotão nas redes sociais trouxe para o debate público um tema que há muito tempo incomoda consumidores, comerciantes e trabalhadores do Centro do Rio Grande: o atual modelo de estacionamento rotativo.
Ao abordar o que chamou de “Síndrome do Consumo Cronometrado”, a publicação faz uma crítica pertinente à lógica que transformou o simples ato de estacionar em uma corrida contra o relógio. O cliente chega ao comércio já preocupado com o tempo, consulta o aplicativo, calcula os minutos disponíveis e, muitas vezes, deixa de circular por diferentes lojas para evitar o custo adicional ou uma eventual notificação. O consumo deixa de ser uma experiência espontânea para se tornar uma atividade cronometrada.
Independentemente de concordar ou não com todos os argumentos apresentados pela empresa, o texto tem o mérito de recolocar na pauta uma discussão necessária: o sistema atual de Zona Azul ainda atende aos interesses da cidade?
A resposta parece ser cada vez mais complexa.
O estacionamento rotativo tem sua função. Seu objetivo original é promover a rotatividade das vagas, evitando que veículos permaneçam estacionados durante todo o dia em áreas de grande circulação. Sob essa ótica, sua existência continua fazendo sentido em alguns pontos estratégicos do centro. O problema está no alcance, no formato e na rigidez do modelo adotado.
Rio Grande mudou. Os hábitos de consumo mudaram. O comércio enfrenta desafios inéditos diante do crescimento das vendas online, da concorrência dos centros comerciais fechados e das transformações no comportamento dos consumidores. Nesse contexto, dificultar ainda mais o acesso ao comércio de rua parece uma estratégia que merece ser revista.
Não se trata de extinguir a Zona Azul. Essa seria uma medida simplista para um problema complexo. O caminho mais inteligente parece ser a reestruturação profunda do sistema.
Uma alternativa seria concentrar a cobrança apenas no quadrilátero central mais movimentado da cidade, compreendido entre as ruas General Osório e Silva Paes, e entre a Benjamin Constant e a General Neto. Fora desse eixo, talvez, apenas a Rua 24 de Maio justificaria a manutenção do estacionamento rotativo em razão de sua dinâmica comercial específica.
A redução da área de abrangência preservaria a rotatividade onde ela é realmente necessária, ao mesmo tempo em que devolveria competitividade e acessibilidade a outras regiões do Centro.
Outra questão fundamental é a política tarifária. O sistema atual oferece pouca flexibilidade ao usuário. É preciso discutir valores mais adequados à realidade econômica local, e começaria revertendo o aumento de forma imediata, e criar opções que permitam permanências diferenciadas, períodos de tolerância mais amplos e modelos que favoreçam tanto o consumidor eventual quanto quem precisa utilizar os serviços da região central por mais tempo.
O “Carro do Terror”
A cidade não pode tratar a mobilidade urbana apenas como uma fonte de arrecadação ou um instrumento de fiscalização. Ela deve ser encarada como uma ferramenta de desenvolvimento econômico.
A metodologia de trabalho da empresa apenas faz causar medo nos usuários do sistema. Notificações administrativas chegam a ser emitidas praticamente no mesmo minuto em que o ticket se encerra, numa voracidade arrecadatória impressionante. E não há conversa! Se você estiver chegando no veículo, ou até mesmo já dentro do carro, multa do mesmo jeito.
Somado à isso, o “Carro do Terror”, nome dado por populares ao carro com câmeras de videomonitoramento, que coloca agentes públicos a serviço da zona azul, emitindo multas de trânsito àqueles que não pagaram o sistema ou que por poucos minutos foram notificados, penaliza arduamente os usuários do Centro.
Prefeita, enquanto não muda o sistema, tire de circulação o Carro do Terror. Não aplique multas penalizando ainda mais aqueles que escolhem o centro para consumir, viver ou trabalhar.
Movimento
Quando comerciantes reclamam da redução do fluxo de clientes, quando consumidores relatam desconforto com o modelo atual e quando empresas locais utilizam suas redes sociais para provocar essa discussão, talvez o mais prudente não seja ignorar o debate, mas ouvi-lo.
A Zona Azul não precisa acabar de forma imediata. Mas, diante das transformações que Rio Grande vive, parece cada vez mais evidente que ela precisa mudar.
Precisa mudar o tamanho, o valor, a falta de bom senso da empresa com os usuários e o papel do Executivo nesse processo. É chegada a hora de um profundo debate sobre o tema.
Cobrança dobrada
Outro problema que enfrenta a zona azul é a dupla cobrança. O usuário precisa pagar o sistema e também os flanelinhas que aglomeram-se no Centro da Cidade. Essa “cobrança dobrada” é outro motivo que afasta consumidores do centro. Se não pagar o sistema, multa. Se não pagar o flanelinha, o carro pode ser arranhado. Aqui o poder público deveria agir com mais força e resolver esse problema de forma ainda mais imediata.





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