Marisa Martins
Mau Humor? Niet
Em Moscou, nem tudo é seriedade e mau humor. Da, Sim, substitui o Niet, Não.
Difícil descobrir moscovitas, repito, moscovitas, não os russos em geral, que descontraiam. Parecem desconfiados e temerosos em relação a turistas. Esta, a impressão, em Moscou. Não em São Petersburgo, e em viagem de trem pelo interior russo.
Entre mais jovens não é tão latente. Mesmo assim, alguns carregam sisudez incompatível com a idade.
Talvez sejam resquícios da época da guerra fria, da KGB, do cerceamento da liberdade de expressão, do medo a punições, ou fixaram-se em sentimentos de perseguição, como se turistas estrangeiros fossem espiões.
Quem sabe, haja certa timidez, pela dificuldade de comunicação em língua que não seja a própria?
Ouve-se niet, não ou nada em russo, em geral, quando é pedida informação na rua, em praças ou metrôs.
Responder a cumprimento em elevador? Niet. Agradecer a elogio? Niet. Auxiliar na compra eletrônica de passagem, para complicado sistema de metrô? Niet.
Mesmo fotografar bela policial a cavalo, na praça frente ao Teatro Bolshoi é difícil. Companheiro cavaleiro ergue a mão, ecoando alto niet. Solução, fotografá-los pela retaguarda.
Em Moscou, no entanto, nem tudo é seriedade e mau humor. Há oásis de descontração. Em especial de da, sim ou certo na complicada língua.
Um desses oásis, grande restaurante envidraçado, em bairro a algumas quadras da Praça Vermelha, foi descoberto em caminhada. Mesas e cadeiras de madeira escura, aconchegante bar, poltronas de couro. Deliciosa surpresa: grelha preparando assados, brasas crepitantes.
Nem bem anoitece, El Torro, assim mesmo, com dois erres, abre as portas.
Sensação caseira, pelo cheiro bom das carnes, gente rindo e confraternizando, garçons atenciosos e alegres. Sem niet. Só da.
Entre suculentos entrecôtes e costeletas, hilária surpresa nas costas dos garçons.
Em camiseta preta, ilustração e irreverente frase (em inglês!): fuck the crisis!
Traduzo como “abaixo a crise”, para amenizar a tradução literal...
P.S.: Moscou mostra duas faces.
Em bares e restaurantes. Da.
Abaixo a crise... de mau humor.








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