José Vitor Silva
“Se um dia eu chegar perto do que meu pai, meu irmão e meu dindo são, eu já estou mais que realizado na vida”: o primeiro capítulo de Lucão no legado do vôlei de praia rio-grandino
Ao conquistar o Circuito de Verão do Sesc em Torres, jovem de 18 anos transforma vitória esportiva em continuidade de uma história familiar escrita há décadas na areia
Quando a dupla formada por Lucão e Toni Jr. levantou o troféu da final estadual do Circuito de Verão de Vôlei de Praia do Sesc, em Torres, a conquista representou mais do que uma vitória esportiva. Aos 18 anos, Lucão não apenas venceu uma das competições mais tradicionais do litoral gaúcho, ele também acrescentou uma nova página a uma história que começou muito antes de sua geração chegar às quadras de areia, marcada pelo nome de seu pai, Márcio Neutzling.
A vitória que carrega memória
A campanha da dupla rio-grandina foi tudo menos tranquila. O torneio reuniu 77 duplas masculinas, cada uma representando um município do Rio Grande do Sul. Desde o início, Lucão e Toni Jr. enfrentaram uma chave considerada uma das mais difíceis da competição.
Ainda no sábado, terminaram a fase de grupos na primeira colocação, o que garantiu vantagem no início da fase eliminatória. No domingo, no entanto, veio o verdadeiro teste: uma sequência de cinco partidas seguidas no mata-mata.
Foram jogos equilibrados, decididos nos detalhes, o tipo de confronto em que qualquer erro pesa mais do que o normal.
“Desde o início caímos em uma chave muito forte, com cruzamentos difíceis no mata-mata. Foi um campeonato em que praticamente todos os jogos foram decididos no detalhe”, contou Lucas Hellwig, o Lucão.
Quando o último ponto caiu na areia, a vitória tinha gosto de resistência.
Crescer assistindo à arquibancada
Para Lucão, Torres não é apenas mais uma etapa do circuito. Durante anos, ele esteve ali em outra posição: assistindo.
Seu pai, Márcio Neutzling, construiu parte importante da carreira justamente naquele cenário. Sete vezes campeão do Circuito de Torres, ele se tornou um dos nomes mais vitoriosos da história da competição. Ao lado do parceiro Bello, formou uma das duplas mais consistentes do vôlei de praia regional desde 2002.
Juntos, conquistaram sete títulos estaduais nos Jogos de Verão do Sesc e acumularam mais de cem troféus na região Sul.
Para quem cresceu vendo essa trajetória de perto, voltar ao mesmo lugar agora como protagonista tem um significado particular.
“Passei anos assistindo meu pai e meu dindo Bello jogarem esse campeonato. Eles foram sete vezes campeões aqui. Conseguir esse título agora, representando o Rio Grande, tem um significado muito grande pra mim”, lembra.
O peso de um sobrenome
No esporte, sobrenomes carregam memória. Às vezes, carregam também expectativa.
Lucão fala disso com naturalidade. Ele sabe que a comparação com os nomes da própria família é inevitável, e, ao mesmo tempo, faz questão de não fugir dela.
“Continuar essa tradição da família não é algo fácil. A régua é bem alta e ainda estou longe de chegar aos pés dos meus ídolos”, admite.
Mas o jovem atleta parece ter entendido cedo algo que muitos demoram a perceber: pressão não desaparece, apenas muda de forma.
“A pressão sempre foi grande e sempre será. A diferença é o jeito que eu lido e cresço com isso.”
Um legado que não é só de títulos
Dentro das quadras, Márcio e Bello acumularam vitórias suficientes para se tornarem referência no circuito regional. Fora delas, construíram outra reputação, a de atletas respeitados pela postura.
Lucão diz que esse é o aspecto do legado que mais tenta carregar consigo.
“Levo essa tradição deles pra fora da quadra também. Sempre foram elogiados por tratar todo mundo bem e ajudar os outros.”
Em um ambiente esportivo onde resultados costumam dominar a narrativa, essa herança silenciosa talvez seja a mais duradoura.
O começo de uma trajetória
Aos 18 anos, Lucão ainda está no início da própria história no vôlei de praia. O título em Torres não define uma carreira, mas estabelece um ponto de partida simbólico difícil de ignorar.
O jovem que cresceu assistindo ao pai levantar troféus agora aparece do outro lado da quadra, com o mesmo sobrenome, mas com um caminho que começa a ganhar forma própria.
“Se um dia eu chegar perto do que meu pai, meu irmão e meu dindo são, eu já estou mais que realizado na vida”, diz.
Na areia do litoral gaúcho, onde muitas trajetórias começam e terminam ao ritmo das temporadas de verão, algumas histórias parecem atravessar gerações.
A de Lucão, ao que tudo indica, está apenas começando.








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