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Rio Grande,24/01/2026

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José Vitor Silva

Entre o comércio e o campo: o reflexo do futebol popular na economia rio-grandina

Com negociações tensas e clubes tentando se reinventar, o futebol do Rio Grande continua sendo o espelho mais honesto da cidade: histórico, apaixonado e teimosamente vivo.


Entre o comércio e o campo: o reflexo do futebol popular na economia rio-grandina

Entre o comércio e o campo: o reflexo do futebol popular na economia rio-grandina

Por José Vitor Silva

Na cidade do Rio Grande, o futebol não é só entretenimento, é termômetro social. O que acontece nas arquibancadas ecoa nas vitrines do centro, nas negociações de sindicato e até no caixa das padarias. Enquanto o comércio tenta se reerguer das cicatrizes deixadas pelo colapso do Polo Naval, o futebol local também procura fôlego para sair da ressaca: são dois rostos da mesma cidade, movidos pela nostalgia do auge e pela teimosia de não desistir.


De um lado, Sindilojas e Sindicato dos Comerciários discutem reajustes e vales-alimentação; de outro, o varejo respira por aparelhos, espremido entre aluguéis caros e consumo em queda. A diferença entre o pedido dos trabalhadores (R$ 520) e a oferta patronal (R$ 388) não é só uma questão de números, é um retrato da distância entre o discurso de otimismo e a realidade das prateleiras vazias. “Nossa cidade não cresceu na época do Polo Naval, apenas inchou”, resume o presidente do Sindilojas, Luiz Escobar, em recente entrevista ao O Litorâneo. A frase poderia sair da boca de qualquer dirigente esportivo local: no futebol, o inchaço sem estrutura também cobrou sua conta.

O Sport Club São Paulo, que já ergueu o Gauchão em 1933, é o exemplo mais claro desse ciclo. Depois de enfrentar dívidas e arquibancadas vazias, o Leão do Parque tenta rugir novamente. Cada jogo movimenta uma economia invisível, ambulantes, bares, motoristas de aplicativo e pequenos comerciantes que dependem da presença da torcida. Em tempos de recessão, um estádio cheio vale tanto quanto um feriado prolongado.

O mesmo espírito pulsa no Sport Club Rio Grande, o “Vovô do Futebol Brasileiro”, que sobrevive há 124 anos sustentado pela comunidade. E no Riograndense, o “Guri Teimoso”, que segue firme mesmo sem grandes patrocínios. Esses clubes, mais do que equipes, são metáforas da cidade: antigos, resistentes e conscientes de que viver de paixão é também um ato econômico.

Com a retomada parcial do Polo Naval e a expectativa de 1,6 mil novos empregos, renasce o discurso da esperança, acompanhado do receio de repetir velhos erros, como o aumento descontrolado dos aluguéis. A lição serve tanto para o comércio quanto para o futebol: sem planejamento, qualquer retomada vira euforia passageira. A revitalização do Calçadão da General Bacelar, prevista para 2026, pode representar o início de um novo ciclo urbano. Nos gramados, esse papel cabe à reorganização dos clubes, que precisam ser vistos não apenas como lazer, mas como agentes econômicos e culturais.


Rio Grande está num ponto de virada. As negociações salariais, os projetos de infraestrutura e o renascimento esportivo fazem parte do mesmo enredo: o de uma cidade que se recusa a ser lembrada apenas pelo que já foi. O futebol continua sendo o espelho onde ela se vê,  às vezes cansada, às vezes vibrante, mas sempre de pé.

Em tempos de crise, vender ou vencer é menos importante do que continuar lutando. No comércio e no campo, o desafio é o mesmo: transformar resistência em movimento, e paixão em reconstrução.



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