Ique de la Rocha
Que chinelagem!
Ninguém mais fala no comercial da Havaianas, que provocou aumento nas vendas da marca, e continua sendo consumida no Brasil e no mundo
Estamos no início de março e nofinal de mais uma temporada de veraneio. Portanto, após as férias e o carnaval,2026 realmente começa a partir de agora. E ainda sob o impacto da entrada de umnovo ano, que sempre dá esperanças de dias melhores, embora o cenáriointernacional seja turbulento e muito preocupante, sem querer provocar, e comoum gesto pelo fim da polarização política no Brasil, que todos possam terentrado o ano com o pé direito. Afinal, não vou deixar de usar essa expressão porcausa do fanatismo e da cegueira política de alguns poucos. Da mesma forma que nãotem que trocar a cor da roupa do Papai Noel por causa do vermelho. Nesse caso,e conhecendo a força da rivalidade Gre-Nal, até dá para abrir uma exceção aosgremistas, mais como forma de aceitar a brincadeira do que ter uma posturaradical, porque ao radicalizar está se privando uma criança de viver o sonho doPapai Noel como ele realmente é.
A polêmica do comercial daHavaianas já passou e talvez agora as pessoas se convençam que somente quem usaóculos vermelho poderia ter enxergado naquela campanha publicitária um viésideológico. Na mensagem, a atriz Fernanda Torres não desejou que as pessoasentrassem 2026 com o pé direito, tampouco com o pé esquerdo, mas com os doispés. Para uma propaganda de chinelos, falar em pé tem tudo a ver, assim comoquerer entrar o ano “com o pé direito”. Só que os publicitários utilizaram essaexpressão tão conhecida dos brasileiros e acrescentaram a criatividade deles,porque ninguém usa chinelo ou qualquer tipo de calçado em apenas um pé e esseadmirado produto, que conquistou o mundo, é vendido em pares, obviamente. Mesmoos que desejaram entrar o ano com o pé direito, também quiseram entrar com osdois pés. Ou não?
O fato da propaganda ter sidofeita por Fernanda Torres, identificada politicamente com a esquerda, pode teracirrado os ânimos dos bolsonaristas, mas certamente foi uma reaçãodesproporcional. Paralelamente às comédias, novelas e filmes, a filha deFernanda Montenegro sempre fez comerciais (inclusive já tinha feito para aHavaianas) e hoje, depois que se tornou a única brasileira a ganhar um Oscar,está mais valorizada do que nunca. Por isso é tão disputada no mercadopublicitário, que não escolhe seus profissionais pela ideologia e sim pelotalento.
Criticar o comercial dasHavaianas foi tão ridículo quanto querer proibir o consumo de Vodka, atrelandoa bebida ao comunismo. Aliás, nos anos de 1960 o saudoso jornalista SérgioPorto, que usava o pseudônimo de Stanislaw Ponte Preta, publicou a trilogia “Febeapá– O Festival de Besteira que Assola o País”, onde comentava com humor fatos dapolítica brasileira durante o regime militar. Uma das histórias relata atentativa de um deputado federal em proibir a venda e o consumo de vodka emBrasília, sob a alegação de que, sendo a bebida de origem russa, isso seriaimportante para combater o comunismo no Brasil. Segundo o Google, nesses livrosSérgio Porto mostrava “o ridículo e a paranoia anticomunista que assolavam opaís na época”.
Como dizem, a história se repete.A paranoia anticomunista dos anos 60 e 70 virou motivo de riso, masinacreditavelmente, em pleno século 21 ela voltou e no fundo não temos motivonenhum para rirmos de tanta ignorância. Teve quem dissesse que iria usar outramarca de chinelos, o que é um direito. Mas até esses sabem qual é a única que“não deforma, não solta as tiras e não tem cheiro”, consequência de umapropaganda feita há muitos anos com profissionalismo e competência. Em negócionão há espaço para ideologias políticas, só para a ideologia do dinheiro.








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