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Rio Grande,25/01/2026

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José Vitor Silva

Do interior ao ineditismo: o Sport Club São Paulo e a mulher que mudou o futebol masculino brasileiro

Cleusa Maia e Domingos Escovar desafiaram o futebol antes que o futebol estivesse pronto para ser desafiado.


Do interior ao ineditismo: o Sport Club São Paulo e a mulher que mudou o futebol masculino brasileiro

Em 1975, enquanto o futebol brasileiro mantinha-se confortável em suas certezas masculinas, uma decisão tomada no extremo sul do país desmontava, na prática, muitas das verdades que o esporte insistia em repetir. Em Rio Grande, Cleusa Maia passava a integrar a comissão técnica de um time masculino profissional, e Domingos Escovar assumia o risco de sustentar essa escolha em um ambiente que não perdoava desvios da norma. Cinquenta anos depois, a morte de Escovar recoloca essa história no centro do debate, não como celebração automática, mas como reflexão sobre quem realmente muda as estruturas do futebol.


Cleusa Maia não foi símbolo decorativo nem curiosidade de jornal. Foi contratada para trabalhar. E trabalhou. Antes do Sport Club São Paulo já atuava com equipes de base do Foot-Ball Club Riograndense, onde o desempenho em campo rapidamente desarmou a desconfiança inicial. Quando assumiu a preparação física do time profissional, em plena vigência de uma legislação que proibia mulheres de jogar futebol profissional, sua presença expôs o paradoxo do esporte: aceitava resultados, mas resistia a quem os produzia fora do padrão esperado.


A reação foi previsível. Charges, manchetes enviesadas, perguntas sobre vestiários e insinuações que pouco tinham a ver com metodologia ou rendimento físico. O que não era previsível, ao menos para parte da imprensa e dos dirigentes, era que o futebol respondesse da forma mais simples possível: com desempenho. O São Paulo fez campanha sólida no Campeonato Gaúcho de 1975, chegou às fases decisivas e teve seu preparo físico apontado como um diferencial. Aos poucos, o discurso mudou. Não por iluminação moral, mas porque os fatos tornaram o preconceito insustentável.


E é aqui que a participação de Domingos Escovar ganha densidade histórica. Escovar não foi apenas um dirigente longevo ou um presidente recorrente do Leão do Parque. Foi alguém que, em um meio avesso a riscos, decidiu assumir um. Sabia que a contratação de Cleusa Maia geraria resistência interna, críticas externas e possíveis desgastes políticos. Ainda assim, bancou. Não por militância explícita, mas por uma combinação rara no futebol: convicção técnica e autonomia decisória.


Ao longo de mais de quatro décadas ligado ao São Paulo, Escovar atravessou diferentes ciclos do clube, presidiu a instituição em seis oportunidades e esteve à frente em momentos de projeção nacional. Em 2021, foi reconhecido como patrono do clube, título que formalizou uma relação construída mais no cotidiano do que nos discursos. Sua morte, aos 89 anos, encerra uma trajetória que ajudou a moldar não apenas o futebol do Rio Grande, mas uma brecha institucional que ainda hoje sustenta avanços tímidos no esporte brasileiro.


O encontro entre Cleusa Maia e Domingos Escovar não foi casual nem romântico. Foi histórico porque foi concreto. Não se apoiou em slogans, mas em trabalho, resultados e enfrentamento direto das estruturas excludentes do futebol. Meio século depois, quando a presença feminina em comissões técnicas masculinas ainda é exceção, essa história deixa de ser apenas passado e se transforma em incômodo.


Talvez o maior legado de ambos seja justamente esse: lembrar que o futebol muda menos por discursos progressistas e mais por decisões práticas, aquelas tomadas quando ainda não há consenso, aplauso ou garantia de acerto. Cleusa Maia e Domingos Escovar não esperaram o tempo mudar. Forçaram o tempo a se mexer.



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