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Rio Grande,11/04/2026

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Luiz Pereira das Neves Neto

Cansaço cívico: o que fazemos quando desistimos de participar?

O cansaço cívico também nasce do excesso de estímulos. Somos bombardeados por informações, notícias, opiniões e polarizações que nos desgastam antes mesmo de agir.

Cansaço cívico: o que fazemos quando desistimos de participar?

Por Me. Luiz Pereira das Neves Neto


“Os muros são as páginas dos que não têm livro. Neles se escreve o que os jornais calam.

Os muros são os gritos de quem não tem voz.” — Eduardo Galeano


Há um silêncio que dói mais do que o barulho. É o silêncio político. Não o das instituições, mas o das pessoas comuns — aquelas que, cansadas de promessas, preferem o alheamento à esperança. O cansaço cívico é esse esvaziamento da vontade de participar, a anestesia social que nos faz acreditar que nada mais pode ser mudado.


Nos últimos anos, a juventude — historicamente protagonista das transformações — parece mais distante dos espaços de decisão. Entre a descrença e o desencanto, muitos se retiram para o conforto da neutralidade, como se não escolher também não fosse uma escolha. O perigo está aí: quando o debate se torna ruído, a apatia se traveste de paz, e a omissão se disfarça de prudência.


Mas a política, em sua essência, é o espaço do encontro — e não do afastamento. É a construção cotidiana do “nós”, mesmo quando o “eu” parece mais seguro. Participar, questionar, propor, ouvir: tudo isso exige energia, tempo e uma dose de fé. Fé de que ainda vale a pena disputar sentidos, mesmo num cenário saturado de desinformação e desencanto.


O cansaço cívico também nasce do excesso de estímulos. Somos bombardeados por informações, notícias, opiniões e polarizações que nos desgastam antes mesmo de agir. As redes sociais transformaram a política em espetáculo, e o engajamento em performance. Curtir e compartilhar tornaram-se gestos suficientes — e o ativismo digital, embora poderoso, muitas vezes substitui a ação concreta pela sensação de participação.


Há, ainda, uma fratura mais profunda: a educação cidadã se perdeu entre fórmulas e métricas. As escolas, quando poderiam formar sujeitos críticos, estão sobrecarregadas por exigências que pouco dialogam com a realidade social. Ensinar o valor do coletivo, da empatia e do senso de responsabilidade pública é tão essencial quanto ensinar português ou matemática. Cidadania não é conteúdo, é vivência.


Resgatar o sentido de pertencimento é urgente. É preciso reaprender a olhar o outro, a cidade, o bairro — e compreender que a política mora nesses espaços de convivência, e não apenas nas urnas. A democracia se fragiliza quando o desinteresse cresce, mas se fortalece quando alguém, mesmo cansado, decide continuar acreditando.


Reaprender a participar talvez seja o maior desafio do nosso tempo. Não se trata apenas de votar, mas de se responsabilizar pelo comum. Como dizia Galeano, “muita gente pequena, em muitos lugares pequenos, fazendo coisas pequenas, pode mudar o mundo”. E é dessa soma de pequenos atos de presença — na escola, no bairro, nas redes, na escuta — que renasce a esperança de uma cidadania que ainda respira. 




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