El Niño 2026: o que já se sabe sobre o fenômeno e quais os riscos para Rio Grande após a tragédia climática de 2024
Especialistas apontam alta probabilidade de formação de um El Niño forte no segundo semestre, mas reforçam que ainda não é possível prever uma repetição das enchentes históricas que atingiram o Estado no ano passado
Foto: Divulgação O avanço do aquecimento das águas do Oceano Pacífico Equatorial reacendeu um sentimento que ainda permanece vivo na memória dos gaúchos: o medo de uma nova tragédia climática como a registrada em maio de 2024. Embora os modelos meteorológicos internacionais indiquem alta probabilidade de formação de um El Niño forte (ou até muito forte) no segundo semestre de 2026, especialistas ouvidos pelo O Litorâneo alertam que ainda não existe base científica para afirmar que o Rio Grande do Sul viverá um desastre semelhante ao do ano passado. O que já pode ser confirmado, no entanto, é um cenário de maior instabilidade climática e tendência de chuvas acima da média na região Sul.
A preocupação ganhou força após a divulgação de uma nota técnica do Centro Interinstitucional de Observação e Previsão de Eventos Extremos (CIEX), na última terça-feira, 12. O documento reforça o alerta para a possível consolidação de um El Niño intenso nos próximos meses e destaca a necessidade de ações preventivas por parte do poder público.
Segundo dados monitorados por centros meteorológicos internacionais, incluindo a Administração Nacional de Oceanos e Atmosfera (NOAA), dos Estados Unidos, as águas do Pacífico Equatorial já apresentam temperaturas compatíveis com o desenvolvimento do fenômeno climático.
O El Niño ainda está em formação
Apesar da crescente atenção em torno do tema, os meteorologistas ressaltam que o fenômeno ainda não está oficialmente consolidado.
Em entrevista ao O Litorâneo, o meteorologista do Instituto de Oceanografia e do CIEX/FURG, Ricardo Gotuzzo, explica que o aquecimento oceânico já é evidente nas camadas subsuperficiais do Pacífico, mas ainda falta a resposta completa da atmosfera para que o fenômeno seja oficialmente caracterizado.
“Existe uma imensa quantidade de água muito quente nas camadas mais fundas do Oceano Pacífico. Essa água já está se deslocando e começando a chegar à superfície. O clima global já está dando os primeiros sinais de que está sentindo esse aquecimento”, afirmou.
De acordo com ele, os principais modelos climáticos do mundo projetam um El Niño forte entre o final do inverno e a primavera de 2026. Para o Rio Grande do Sul, isso representa maior probabilidade de períodos chuvosos acima da média histórica. Ainda assim, Gotuzzo reforça um ponto considerado central pelos especialistas: aumento do risco não significa repetição automática de um desastre.
O trauma de 2024 e os limites da previsão
A lembrança das enchentes históricas que devastaram cidades gaúchas em maio de 2024 inevitavelmente influencia a forma como a população observa o novo cenário climático. Para os pesquisadores, porém, é importante separar tendência climática de previsão de catástrofe. “O que provocou a tragédia de maio de 2024 foi uma combinação raríssima e muito específica de fatores atmosféricos e oceânicos de curto prazo”, explicou Gotuzzo.
Segundo o meteorologista, além da influência do El Niño, houve naquele período um bloqueio atmosférico que manteve sistemas de chuva praticamente estacionados sobre o Estado por vários dias, potencializando os acumulados extremos. “A ciência meteorológica não consegue prever, com meses de antecedência, se uma combinação exata como aquela vai voltar a acontecer”, acrescentou.
O próprio histórico climático recente ajuda a dimensionar essa diferença. Entre 2015 e 2016, o planeta atravessou um dos El Niños mais fortes já registrados, sem que o Rio Grande do Sul enfrentasse impactos semelhantes aos observados em 2024.
Chuva acima da média preocupa região Sul
Mesmo sem previsão específica de enchentes, os especialistas concordam que a tendência para o segundo semestre é de aumento significativo na frequência de chuvas no Sul do Brasil.
O El Niño ocorre quando as águas do Pacífico Equatorial permanecem aquecidas acima da média por um período prolongado, alterando a circulação atmosférica global. Esse desequilíbrio interfere diretamente na formação de chuvas, ondas de calor e períodos de seca em diferentes partes do planeta.
Para o Rio Grande do Sul, os principais efeitos costumam aparecer durante a primavera, especialmente entre setembro e novembro. O CIEX ressalta que até mesmo episódios classificados como moderados já são capazes de favorecer eventos meteorológicos severos no Estado.
Ainda assim, permanece uma limitação importante: não é possível determinar com antecedência quais regiões serão mais impactadas nem de que forma a chuva ocorrerá. “Pode ser uma chuva mais distribuída ao longo do período ou episódios concentrados em poucos dias. Hoje, tecnicamente, ainda não temos como afirmar”, destacou Gotuzzo.
Rio Grande monitora cenário com preocupação
Municípios do sul do Estado acompanham o avanço do fenômeno com atenção redobrada devido à vulnerabilidade de áreas próximas à Lagoa dos Patos e ao histórico recente de alagamentos.
Na manhã da última quarta-feira, 13, representantes do CIEX participaram de uma reunião com as Defesas Civis do Rio Grande, Pelotas e São José do Norte, além do Corpo de Bombeiros e da Agência da Lagoa Mirim. O encontro teve como foco orientar gestores públicos sobre estratégias antecipadas de mitigação de riscos.
A principal recomendação apresentada pelos pesquisadores foi a substituição de uma lógica reativa por planejamento preventivo baseado em monitoramento científico contínuo.
O secretário executivo da Defesa Civil do Rio Grande, Anderson Montiel, afirmou que o município já acompanha o cenário em conjunto com o CIEX e prepara um posicionamento oficial para os próximos dias.
Aquecimento global amplia extremos
Para além do El Niño, pesquisadores apontam que a mudança climática global vem tornando os eventos extremos mais frequentes e mais difíceis de prever.
O professor da FURG e ecólogo Marcelo Dutra avalia que o aquecimento global é hoje o principal fator de agravamento dos desastres climáticos. “O El Niño potencializa os extremos, mas o principal problema é a mudança do clima. Os padrões ambientais mudaram, a temperatura mudou, a chuva mudou”, afirmou.
Dutra acredita que, caso o fenômeno persista até o início de 2027, os impactos sobre o Sul do país podem se tornar mais severos.
Ao mesmo tempo, o pesquisador faz críticas à ausência de medidas estruturais após as enchentes do ano passado. “2024 passou e aprendemos pouco. Não atualizamos o nosso Plano Diretor, seguimos vulneráveis e sem obras estruturais de contenção de cheias. A ciência já deixou claro que novos eventos extremos vão acontecer”, alertou.
Entre o medo e a prevenção
Se existe um consenso entre os especialistas, ele passa menos pelo alarmismo e mais pela necessidade de preparação.
O avanço do El Niño ainda está sendo monitorado, e os próximos meses serão decisivos para confirmar a intensidade do fenômeno. Até lá, pesquisadores insistem que o maior erro seria transformar o debate climático apenas em reação ao trauma recente. “O comparativo que devemos fazer com 2024 não é o do pânico, mas o da lição aprendida”, resumiu Ricardo Gotuzzo.
Para os meteorologistas, o principal diferencial de 2026 é justamente o tempo de antecedência disponível para monitoramento e planejamento, algo que pode transformar previsões em ações concretas de prevenção antes que novos extremos climáticos atinjam o Estado.





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