De quem não corria 100 metros ao topo da América do Sul: rio-grandino conquista o Mega Finisher e entra para a história
Vagner Santos se tornou o primeiro atleta do Rio Grande a completar o circuito internacional de maratonas realizado em cinco países sul-americanos e apenas o segundo gaúcho a alcançar a marca
Foto: Acervo Pessoal Quando começou a correr durante a pandemia, em 2022, Vagner Santos não conseguia completar sequer 100 metros sem parar. Quatro anos depois, o rio-grandino acaba de cruzar uma linha de chegada que poucos atletas sul-americanos alcançaram: tornou-se o primeiro representante da história do Rio Grande a concluir o Circuito Mega Finisher, desafio internacional que reúne maratonas e meias maratonas em cinco países da América do Sul, e apenas o segundo gaúcho a conquistar a chamada “Mega Legend”, medalha entregue aos atletas que completam todo o percurso continental.
A conquista foi finalizada neste fim de semana, encerrando uma jornada que levou o atleta por provas em Brasil, Argentina, Paraguai, Peru e Uruguai, passando por cidades como Buenos Aires, Lima, Montevidéu, Assunção e Brasília.
Mais do que um circuito esportivo, o Mega Finisher se consolidou como uma espécie de travessia simbólica entre resistência física, turismo e intercâmbio cultural. Em cada etapa, corredores encaram diferentes climas, altitudes, paisagens e ritmos urbanos até completar o circuito continental.
Uma corrida que começou no silêncio da pandemia
A história de Vagner dentro da corrida nasceu sem grandes pretensões competitivas. O ponto de partida foi o isolamento da pandemia, período em que as ruas se tornaram um dos poucos espaços possíveis de movimento. “No início eu não conseguia correr 100 metros. Fui aumentando aos poucos, metro por metro”, relembra.
A evolução veio de maneira gradual, até que surgiu a necessidade de orientação profissional. Foi nesse momento que ele procurou a assessoria Vida Corrida, iniciando uma rotina estruturada de treinos. “Aí a coisa ficou séria”, brinca. “Mesmo sem cobrança externa, eu comecei a me cobrar para evoluir conforme a planilha.”
As primeiras provas foram curtas: cinco quilômetros, depois dez. Em seguida vieram as meias maratonas. E junto delas, uma lógica quase inevitável no universo da corrida de rua: quem corre 5 km quer correr 10; quem faz 10 sonha com 21; e quem completa 21 começa a olhar para os 42 quilômetros.
Da primeira maratona à ultramaratona
A estreia em maratonas aconteceu em Buenos Aires, em 2023. No ano seguinte, Vagner ampliou ainda mais os próprios limites ao completar a Super Maratona 50K em Rio Grande, tornando-se ultramaratonista. Foi nesse período que o Mega Finisher entrou definitivamente em seus planos.
Como já havia concluído uma das etapas do circuito, começou a transformar a ideia em meta concreta. Aos poucos, as viagens deixaram de ser apenas deslocamentos esportivos e passaram a construir uma experiência mais ampla.
“O circuito mistura corrida, turismo e gastronomia. Cada lugar tem uma cultura diferente e isso transforma tudo numa experiência muito prazerosa”, afirma. Ao longo do desafio, Vagner percorreu cidades em diferentes países sul-americanos, atravessando cenários que iam das grandes avenidas urbanas aos percursos cercados por montanhas, áreas históricas e regiões costeiras.
A medalha que carrega mais do que quilômetros
A Mega Legend, medalha concedida aos atletas que concluem o circuito completo, simboliza uma conquista rara dentro da corrida sul-americana. Mais do que resistência física, exige constância financeira, organização logística e disciplina ao longo de anos. Para um atleta do interior gaúcho, distante dos grandes centros tradicionais da corrida nacional, o feito ganha dimensão ainda maior.
“Da cidade do Rio Grande eu sou o primeiro a completar. E do Estado, pelo que foi confirmado pela organização, sou o segundo gaúcho a conseguir isso”, destaca. Mas talvez o significado mais profundo da conquista esteja longe das estatísticas.
Em meio à rotina de treinos, aeroportos, provas e quilômetros acumulados, Vagner resume a experiência como uma forma de reconexão consigo mesmo. “A importância disso tudo é sentir-se vivo. Fazer algo que um dia parecia completamente inimaginável.”
Entre fronteiras e superação
O Mega Finisher nasceu como um circuito internacional pensado para integrar países sul-americanos através da corrida de rua. Mais do que um calendário esportivo, o projeto tenta transformar o esporte em experiência continental, conectando atletas de diferentes culturas em provas espalhadas pela América do Sul.
Ao completar o desafio, Vagner Santos não apenas colocou seu nome na história da competição. Também inscreveu o Rio Grande em um circuito que atravessa fronteiras, idiomas e geografias, tudo isso começando com alguém que, há poucos anos, acreditava não conseguir correr sequer uma quadra.





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