Do quarto na Cidade Nova ao Grammy Latino: a trajetória de 808 Luke, o produtor que transformou vivência em som
Entre influências, resistência e identidade, artista rio-grandino constrói carreira nacional sem abrir mão das raízes
Foto: Acervo Pessoal Não houve um momento exato em que Lucas Borges de Souza decidiu que viveria de música. Quando percebeu, ela já ocupava tudo. Nascido em 9 de novembro de 1994, no bairro Cidade Nova, em Rio Grande, o produtor conhecido como 808 Luke cresceu entre discos, televisão ligada e curiosidade, ingredientes que, com o tempo, deixaram de ser apenas influência para se tornarem linguagem.
Hoje, com certificações multiplatina e trabalhos que atravessam o rap nacional, sua trajetória não se encaixa na narrativa clássica de “virada de chave”. É mais próxima de um acúmulo: de tentativas, de escuta, de insistência.
Uma infância guiada pelo ouvido
Ao contrário de narrativas lineares, em que há um “antes” e um “depois” da descoberta artística, Luke descreve sua relação com a música como algo anterior à própria consciência de escolha. “Não consigo imaginar um ‘Lucas’ anterior à música. Minhas primeiras lembranças já me colocam em contato com ela.”
O ambiente doméstico foi o primeiro território de formação. O pai, colecionador de discos, não apenas apresentava sons, mas, sem saber, organizava um repertório afetivo. Luke absorvia, sem método, sem filtro, o que chegava. E foi nesse fluxo despretensioso que surgiram as primeiras referências.
Ele não lembra exatamente as novelas, mas lembra das músicas. Não recorda o contexto, mas guarda o impacto. Foi assim que nomes como Marcelo D2 entraram em sua vida, ao lado de experiências aparentemente desconexas: videoclipes na televisão, trilhas de videogame, fragmentos de cultura pop que, mais tarde, fariam sentido. “Eu não entendia a letra, mas aquilo me pegava de algum jeito.”
Criar antes de saber por quê
Na adolescência, a música não era um projeto, era um hábito. Letras escritas em cadernos, bandas formadas sem muita estrutura e um grupo de rap que nunca chegou a gravar já indicavam uma inquietação criativa constante.
Não havia expectativa de carreira. Em uma cidade distante dos grandes centros da indústria, a música funcionava mais como extensão da personalidade do que como profissão possível. “Aqui, isso não é uma perspectiva que a gente tem ao nosso alcance.”
Discos que viraram lente de mundo
Alguns trabalhos não só marcaram fases, como moldaram a forma de ouvir música. Entre eles, A Procura da Batida Perfeita, de Marcelo D2, e Get Rich or Die Tryin’, de 50 Cent.
O encontro com o projeto Collision Course, de Linkin Park com Jay-Z, sintetiza esse momento. Para ele, não era apenas um disco, mas uma espécie de tradução do que já existia internamente. “Era como se juntasse tudo que eu já ouvia.”
Não era apenas sobre escutar, era sobre investigar. Luke buscava entender estética, comportamento, contexto. Uma curiosidade que ia além do som e ajudava a construir, ainda que inconscientemente, sua identidade como produtor.
Hoje, o repertório se expandiu. Ao lado do trap que produz, convivem artistas como Djavan e Milton Nascimento, além de vertentes como soul e R&B. O contraste não é contradição, é método.
O estúdio que quase não existiu
Entre os muitos episódios que compõem sua trajetória, um se destaca não pelo resultado, mas pelo gesto. Quando decidiu montar seu próprio estúdio, Luke enfrentou resistência dentro de casa. A ideia parecia arriscada demais.
Foi o avô quem interrompeu o impasse. “Ele disse: ‘vamos fazer isso aí’.” O estúdio começou a ser erguido. O avô não chegou a vê-lo pronto, mas fez questão de acompanhar de perto o início da obra. O gesto permanece como um dos pilares invisíveis da carreira de Luke.

Limitação como ponto de partida
Os primeiros beats nasceram com o que havia disponível: um notebook, sem monitores, sem instrumentos. O ouvido, ainda em formação, compensava como podia, às vezes com erros que hoje ele reconhece, como múltiplas linhas de grave sobrepostas. Mas foi nesse cenário que a prática se consolidou.
O reconhecimento veio aos poucos. A produção da faixa “Onze”, de Baco Exu do Blues, marcou um salto de visibilidade e indicou que o caminho, mesmo improvisado, estava funcionando.
Sem atalhos, sem ruptura
A carreira de 808 Luke não tem um antes e depois bem definidos. O crescimento aconteceu em fluxo contínuo: um som que funciona, outro que não, portfólio que se acumula. “Era acertar um, errar outros, e continuar.”
A primeira grande validação veio com a faixa “Onze”, de Baco Exu do Blues, que ultrapassou um milhão de visualizações em um momento em que isso ainda tinha outro peso dentro da cena. Mesmo assim, ele evita tratar números como ponto final. “Música boa não envelhece. Às vezes ela encontra o público anos depois.”
Com o tempo, vieram colaborações com nomes como BK' e Don L, não como ponto final, mas como parte do percurso.
A relação com o rapper Fúria sintetiza bem esse processo: parceria musical que virou convivência, dividindo não só estúdio, mas também rotina e espaço.
Já a colaboração com The Game carrega outro tipo de impacto, daqueles que parecem grandes demais para caber na rotina.
Quando o projeto vira teste

Entre os trabalhos mais exigentes está a mixtape “Músicas para sair na mão vol.1”, do Rap, Falando. Mais do que produzir, Luke participou da construção do projeto em diferentes frentes.
Reunir dezenas de artistas, articular processos criativos e manter coerência estética exigiu mais do que técnica, exigiu visão. Foi um exercício de síntese: transformar múltiplas vozes em um mesmo corpo sonoro.
Sentimento como eixo, técnica como consequência
No estúdio, Luke não busca equilíbrio entre razão e emoção. A prioridade é clara: o sentimento vem primeiro. “Era acertar um, errar outros, e continuar.” A técnica, segundo ele, é resultado de repetição e tempo. Já a emoção precisa estar presente desde o início , caso contrário, a música perde sentido antes mesmo de ganhar forma.
Suas batidas costumam nascer de um detalhe: um timbre, um acorde, uma ideia captada na rua. Pequenos gatilhos que, quando funcionam, puxam o restante do processo.

Ficar para não se perder
Mesmo com circulação frequente em centros maiores, Luke mantém base em Rio Grande. Não por falta de oportunidade, mas por escolha. A cidade funciona como referência e limite. É o lugar que impede que a carreira se torne apenas sobre números ou visibilidade.
Mais do que representar o sul, ele tenta manter uma lógica inversa: quanto mais avança, mais se reconecta com o ponto de partida. Para ele, permanecer conectado ao lugar de origem não é apenas uma questão afetiva, mas também um posicionamento. “Quanto mais eu chego longe, mais eu volto.”
Essa lógica se reflete na forma como enxerga seu papel dentro da cena: não como exceção, mas como possibilidade. “Se eu consegui, outras pessoas podem conseguir também.”
Entre continuar e desistir, todos os dias
A estabilidade financeira veio apenas anos depois do início. Até lá, o trabalho era sustentado por expectativa.
Hoje, mesmo com reconhecimento, a dúvida permanece. A ideia de desistir aparece com frequência, não como fraqueza, mas como parte do processo de quem vive de arte em um cenário instável. Ainda assim, ele segue.
Pontes em vez de pedestal
Se existe um objetivo que organiza o futuro, não é acumular conquistas individuais. É criar conexões.
Luke fala em ser ponte: entre artistas, entre cenas, entre possibilidades. Especialmente em regiões onde a música ainda não se sustenta como mercado. “Queria ver o dinheiro girando aqui, com mais gente vivendo de música.” O desejo é simples na formulação, mas complexo na prática, fazer com que mais pessoas consigam viver daquilo que criam.
O que fica quando a história for contada
Quando pensa no próprio legado, 808 Luke não aponta para números, prêmios ou nomes com quem trabalhou.
O que ele quer preservar é outra coisa: a recusa em seguir uma lógica baseada apenas em status. A tentativa constante de fazer diferente, mesmo quando o caminho mais fácil estava disponível.
No fim, sua trajetória não é sobre chegar. É sobre continuar com o mesmo impulso de quem, anos atrás, produzia beats no quarto sem saber exatamente onde aquilo daria.





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