Pescadores protestam contra Parque do Albardão em frente à Prefeitura do Rio Grande
Manifestação reuniu centenas de trabalhadores que temem impactos diretos na atividade pesqueira após criação da unidade de conservação
Foto: José Vitor Silva/O Litorâneo O anúncio do Parque Nacional do Albardão saiu do papel e chegou às ruas nesta quinta-feira, 02, em Rio Grande, onde cerca de 400 pessoas ligadas à pesca se concentraram em frente à Prefeitura para contestar a criação da unidade de conservação, oficializada por decreto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
O mar virou pauta (e protesto)
A manifestação transformou o espaço em frente ao Executivo em ponto de pressão. Com cartazes, bandeiras e carro de som, pescadores artesanais, trabalhadores portuários e comerciantes ligados ao setor deram forma a uma preocupação que vinha crescendo desde a publicação do decreto.
Não se tratava apenas de um ato simbólico. Era, sobretudo, um recado: as decisões tomadas em Brasília têm efeitos diretos na rotina de quem vive da água.
Uma cadeia que vai além do barco
Entre os manifestantes, o discurso se repetia com variações: o impacto não ficaria restrito ao pescador. Oficinas, estaleiros, fornecedores de gelo, combustível e equipamentos, onde toda a engrenagem econômica que orbita a pesca foi citada como parte do problema.
Ronaldo de Souza, representante da comunidade pesqueira, resumiu o sentimento predominante: a percepção de que a proteção ambiental estaria avançando sobre uma atividade já regulada e, na visão deles, cada vez mais limitada.
“Hoje é o parque. Amanhã, o que mais vai ser restringido?”, questionou.
Um parque do tamanho do debate
A nova unidade de conservação cobre mais de 1 milhão de hectares no litoral de Santa Vitória do Palmar, uma escala que ajuda a explicar a dimensão da reação. O modelo adotado combina áreas de preservação integral com zonas de uso controlado, criando um mosaico de regras que ainda serão detalhadas.
É justamente esse “ainda” que alimenta a tensão: sem plano de manejo definido, o futuro das atividades tradicionais permanece em aberto.
Ciência aponta ganhos, pescadores temem perdas
Do outro lado do debate, pesquisadores defendem que áreas protegidas podem funcionar como berçários naturais, favorecendo a recuperação dos estoques pesqueiros ao longo do tempo. A lógica é de médio e longo prazo.
Para quem depende da próxima saída ao mar, o cálculo é outro.
A distância entre essas duas temporalidades (a da política ambiental e a da sobrevivência imediata) aparece como um dos pontos centrais do conflito.
O que está em jogo
Mais do que um embate sobre uma área específica, o caso do Albardão revela uma disputa maior: como organizar o uso do mar em um cenário que mistura conservação, pesca e novos interesses, como a energia eólica offshore.
Sem regras claras e pactuadas, o oceano deixa de ser apenas recurso e passa a ser território em disputa.






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