Parque Nacional do Albardão pode redefinir a economia do mar no sul do RS, avalia ecologista
Em entrevista exclusiva, Marcelo Dutra analisa impactos da nova unidade de conservação sobre pesca, turismo, ciência e energia offshore no litoral gaúcho
A criação do Parque Nacional do Albardão, oficializada por decreto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, inaugura um novo capítulo na disputa, e na possível convergência, entre conservação ambiental e desenvolvimento econômico no extremo sul do Brasil. Para o ecologista Marcelo Dutra, professor da Universidade Federal do Rio Grande (FURG), a nova unidade de conservação pode reorganizar a dinâmica econômica ligada ao oceano na região, desde que seja acompanhada de planejamento territorial e governança ambiental.
Em entrevista exclusiva ao O Litorâneo, o pesquisador afirma que o parque tem potencial para transformar a região em um polo estratégico de pesquisa científica, turismo de natureza e economia azul, ao mesmo tempo em que reabre o debate sobre a instalação de projetos de energia eólica offshore no litoral sul gaúcho.
Um refúgio ecológico com efeitos fora do parque
Na avaliação de Dutra, áreas de conservação marinha de grande escala costumam produzir efeitos que extrapolam seus próprios limites geográficos. O principal deles está ligado à recuperação dos estoques pesqueiros.
Segundo o pesquisador, ambientes protegidos funcionam como zonas de reprodução e crescimento de espécies, permitindo que populações marinhas se recuperem da pressão exercida por atividades como a pesca industrial.
Com o tempo, parte desses organismos se dispersa para áreas adjacentes.
“Esse fenômeno contribui para recompor estoques pesqueiros e pode ampliar a produtividade da pesca artesanal e industrial fora dos limites da unidade”, explica.
Para a economia regional, o impacto pode ser significativo, sobretudo em municípios cuja relação histórica com o mar está ligada à pesca e às atividades portuárias.
Um novo ativo territorial para o turismo
Outro efeito possível da criação do parque está no campo do turismo de natureza. O Albardão abriga um dos trechos mais contínuos e pouco alterados da costa brasileira, cenário raro em um país onde grande parte do litoral já foi intensamente urbanizada.
Para Dutra, preservar esse espaço cria um ativo territorial que pode atrair novas formas de uso econômico.
Entre elas estão atividades como observação de fauna, expedições científicas, educação ambiental e turismo de contemplação, modalidades que vêm crescendo em regiões costeiras do mundo.
Esse tipo de movimento, afirma o pesquisador, tende a estimular cadeias econômicas locais, envolvendo desde serviços de guiamento até hospedagem especializada.
Energia eólica e conservação: conflito ou planejamento?
A criação do parque também ocorre em um momento em que o litoral sul do Rio Grande do Sul aparece em estudos técnicos como uma das áreas mais promissoras do país para geração de energia eólica offshore.
Para Dutra, a existência de uma unidade de conservação não significa necessariamente um bloqueio a esse tipo de investimento. O que muda é a necessidade de planejamento mais rigoroso.
“O parque pode funcionar como um elemento de ordenamento do espaço marinho”, afirma.
Na prática, isso significa que a presença da unidade de conservação pode ajudar a definir quais áreas são ambientalmente sensíveis e quais poderiam receber infraestrutura energética, reduzindo conflitos futuros.
O desafio, segundo ele, é que o Brasil ainda não consolidou um sistema de planejamento espacial marinho, instrumento utilizado em diversos países para organizar os diferentes usos do oceano.
Ciência e economia do conhecimento
A escala territorial do parque também cria condições para um outro tipo de atividade econômica: a produção de conhecimento científico.
A combinação entre o parque e a Área de Proteção Ambiental do Albardão estabelece, na visão de Dutra, um verdadeiro laboratório natural de grande escala para o estudo dos ecossistemas marinhos do Atlântico Sul.
Pesquisas de longo prazo, monitoramento da biodiversidade e cooperação científica internacional podem surgir a partir dessa base.
Esse tipo de atividade, embora menos visível que setores tradicionais da economia, tende a estimular cadeias produtivas ligadas à tecnologia ambiental, monitoramento oceânico e gestão costeira.
O peso geopolítico da conservação
A criação do parque também possui uma dimensão internacional. A área protegida está localizada em um corredor migratório marinho que conecta o litoral brasileiro a ecossistemas oceânicos de latitudes mais altas, próximas da Antártica.
Para Dutra, proteger regiões-chave dentro desse sistema de conectividade ecológica fortalece a posição do Brasil em debates globais sobre conservação oceânica.
“Iniciativas desse tipo reforçam a credibilidade do país em agendas internacionais de sustentabilidade e economia azul”, afirma.
O verdadeiro teste começa agora
Apesar do simbolismo da criação do parque, Dutra alerta que decretos não garantem, por si só, resultados ambientais ou econômicos.
O funcionamento efetivo da unidade dependerá de fatores como estrutura de fiscalização, financiamento permanente e elaboração de um plano de manejo robusto.
Também será fundamental integrar o parque a uma estratégia mais ampla de ordenamento territorial da costa e do mar.
Sem isso, a nova unidade corre o risco de existir apenas no papel.
“Grandes áreas protegidas só funcionam plenamente quando estão inseridas em uma rede de governança ambiental e planejamento de longo prazo”, afirma o pesquisador.
Se bem conduzido, o processo pode transformar o litoral de Santa Vitória do Palmar em um dos principais experimentos brasileiros de convivência entre conservação marinha, ciência e desenvolvimento econômico sustentável.









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