Não foi o Vanderlei que escolheu o esporte, foi o esporte que escolheu o Vanderlei
Vanderlei Cordeiro de Lima conta sua trajetória e comenta suas expectativas para a futura geração.
Foto - Paulo Rossi Vanderlei Cordeiro de Lima, ex-maratonista olímpico, medalhista de bronze nos Jogos Olímpicos de Atenas, bi-campeão Pan-Americano e o único sul-americano premiado com a medalha Pierre de Coubertin, veio a Pelotas no último sábado, 11, e nos falou um pouco sobre sua trajetória de vida, carreira, e comentou suas expectativas para a futura geração.
Nascido no interior do Paraná, filho de nordestinos que fugiram da seca em busca de prosperidade nas lavouras do sul do país, Vanderlei não teve uma vida fácil “Eu saí lá do interior do Paraná, numa pequena cidade, trabalhando na roça, era boia fria, eu não tinha perspectiva de vida nenhuma”.
Apesar de conquistar tudo que conquistou, se mantém com a mesma humildade de onde veio, deixando seu recado aos jovens “mostrar para essa juventude, para esses que estão aí começando, ou estão aí sonhando, querendo, que, na verdade, a minha história nunca foi diferente, nunca vai ser diferente da história de cada um deles”.
Maratona de perguntas
Como foi a tua infância?
“Bom, na verdade, uma infância pobre, com poucos acessos, mas com muitos valores. Dentro da minha casa, boa educação, boa formação. Meus pais, muito religiosos, buscando sempre a perseverança. Eu saí lá do interior do Paraná, numa pequena cidade, trabalhando na roça, era boia fria, eu não tinha perspectiva de vida nenhuma”.
Como tu conheceu a corrida?
“O esporte, na verdade, veio ao meu encontro. Não foi o Vanderlei que escolheu o esporte, foi o esporte que escolheu o Vanderlei. Eu fui motivado pelo professor de educação física dentro da escola. Fui convidado a representar a escola nos jogos escolares. Esse foi o meu primeiro contato que eu tive com a corrida. E foi um contato, assim, de um amor à primeira vista. E aí, eu busquei a corrida como meio de ascensão. Através da corrida, buscar uma perspectiva de vida melhor. E assim, sucessivamente, foi se abrindo um leque de oportunidades. E aí, eu trouxe a corrida como um desafio pra mim. Fazer com que a corrida fosse parte do meu cotidiano, de uma construção de algo muito maior. Fazer da corrida a minha vida”.
“Eu lembro que quando eu ainda era criança, tinha 14, 15 anos de idade, não tinha energia na minha casa, mas uma imagem nunca saiu da minha cabeça, quando eu estava na porta da casa de um vizinho assistindo televisão, eu vi a imagem do Joaquim Cruz dando volta Olímpica, e aí eu coloquei para mim e falei, nossa, um dia eu quero estar nos Jogos Olímpicos, vendo aquela imagem coloquei isso na minha cabeça, e fui buscar a realização desse sonho. Sabia que naquele momento da minha vida, era um sonho impossível, mas aquele sonho, ele nunca saiu da minha cabeça”.
Quando tu transforma a corrida em profissão?
“Demorou-se um tempo. Até porque os desafios eram enormes. Naquele momento da minha carreira, da minha vida. Mas eu tava convicto de que realmente era aquilo que eu queria. Então, foi uma decisão assim, contrariando meu pai e minha mãe, porque eles não queriam que eu saísse de dentro da minha casa. Ainda menor. Mas eu encarei esse desafio como algo que seria, talvez, como foi, a única oportunidade que eu tive. Então, fiz desse momento, dessa oportunidade, a minha história e a minha vida. Mas pra tomar essa decisão foi muito difícil, até porque não me dava segurança. Eu tive que contrariar a tudo e a todos pra alimentar esse sonho de um dia se tornar atleta, de um dia poder estar nos Jogos Olímpicos. Então, foi um processo lento, árduo, com muito trabalho, dedicação, muitas barreiras. Mas a minha vida como atleta sempre foi com muitos desafios. Com muitos obstáculos”.
Como foi a preparação para Atenas? Como é que estava a cabeça para competir pela terceira vez nos Jogos Olímpicos, depois de um retrospecto que não era o melhor?
“Na vida de um atleta, tudo é processo. E dentro desse processo, você vai procurando melhorar cada vez mais. Eu acho que não só na questão física, mas também na emocional. E por ter passado já por dois ciclos olímpicos, já me dava uma condição de um preparo, acho que não só na questão física, mas também emocional muito grande. Então, no meu terceiro ciclo olímpico em Atenas, eu já estava muito mais maduro, muito mais convicto daquilo que eu queria pra minha vida”.
“Na primeira e segunda Olimpíada houveram alguns fatos externos que me tiraram das grandes possibilidades de estar nos meus primeiros jogos e fazer o resultado do qual a gente esperava. Na primeira Olimpíada, eu esperava estar entre os dez. E sucessivamente, em Sydney também, eu tinha condições, até porque eu sempre me mantive dentro de um padrão de regularidade de resultado que me colocava nessas condições. Mas foram fatos que me tiraram essa chance. Não porque talvez eu não pudesse alcançar naquele momento aquele resultado, mas foram fatores que acabam fazendo parte do cotidiano de um atleta, e é isso que faz o atleta buscar a superação, são esses momentos que você cresce e se fortalece cada vez mais”.
“Atenas foi um grande momento, com 35 anos de idade, na minha melhor forma física e emocional também. Meu treinador, ele me colocou, Vanderlei, você não vai ter outra chance, vai ser a sua última Olimpíada, então a gente vai fazer de tudo, vamos fazer um trabalho que a gente possa chegar lá e alcançar um grande resultado. Então, não foi sorte”.
Depois de ser agredido pelo padre, de onde tu tirou forças para levantar e terminar a prova?
“É uma busca constante de uma vida toda. Não seria no meu melhor momento, né, da minha carreira, da minha vida, que eu poderia perder a chance”.
“Ah, porque o padre agarrou o Vanderlei, agrediu o Vanderlei. A agressão do padre só foi um detalhe dentro da minha história. Aquilo não foi um momento único de dificuldade que eu passei. A vida já havia me lapidado muito tempo antes pra encarar aquela situação com uma normalidade. Pra quem me conhece e sabe quem eu sou, eu não faria outra coisa diferente da qual eu fiz. Era muito normal reagir daquela forma. Porque sempre reagia dessa forma. Caindo, tropeçava, mas sempre levantando, dando um passo adiante pra buscar os meus objetivos”
Mesmo com tudo que tinha ocorrido na prova, tu chegou no Panatenaico sorrindo, acenando para o público, o que passava na tua cabeça?
“Eu estava em Atenas, nos Jogos Olímpicos, chegando no Panatenaico, conquistando a medalha, e ali veio um filme da minha vida, de onde que eu saí, qual foi o processo que eu passei pra chegar naquela situação”
“Você entrar dentro de um seleto grupo de atletas medalhistas no universo Olímpico, é para um pequeno grupo, num seleto grupo a nível Olímpico no mundo, e eu estava entrando dentro desse grupo. Aquela situação, reflete um pouco da minha história, da minha vida, como eu disse, a minha infância foi uma infância pobre, de poucos acessos, então ali eu estava praticamente conquistando tudo aquilo que eu queria na minha vida, não tinha porquê reclamar, mesmo não alcançando e sendo impedido de buscar aquilo que eu sempre almejei na minha carreira, eu fiquei muito feliz, porque o mais importante talvez não tenha sido simplesmente a conquista de uma medalha de bronze, mas o mais importante é poder também contar a minha história, porque a minha história também é uma história de um vencedor”
“Aquela conquista da medalha de bronze, mesmo não sendo dourada, aquilo ali foi uma honra enorme pra mim, porque ali eu estava me sentindo realizado de todas as formas, olhando o meu passado, olhando a minha história, então eu não tinha nenhum direito de reclamar ou reivindicar qualquer situação que fosse o contrário daquela que eu estava vivendo”
A situação aqui na região sul do estado não é das melhores, cidades interioranas, periféricas, a juventude nem sempre enxerga esperanças em suas vidas. Qual é a importância que enxergas da tua presença em eventos de maratona?
“Poder mostrar para essa juventude, para esses que estão aí começando, ou estão aí sonhando, querendo, que, na verdade, a minha história nunca foi diferente, nunca vai ser diferente da história de cada um deles. Eu saí também lá do interior do Paraná, numa pequena cidade, trabalhando na roça como boia fria, eu também não tinha perspectiva de vida nenhuma”
“É você olhar lá na frente, lá, ver alguém como exemplo, alguém que você possa seguir, alguém que você possa se espelhar, porque aquela pessoa é como esperança na tua vida”
“Quando você alimenta o sonho, e ele acontece, ele vem de uma maneira assim, muito significativa e importante no momento da vida da pessoa. Porque a realização desse sonho de me tornar atleta Olímpico, ela veio de um encontro, de algo que eu nem esperava. Foi quando eu participei dos meus primeiros Jogos em Atlanta, eu estava ali realizando o sonho de me tornar atleta Olímpico, mas também tendo a chance de, no meu primeiro Jogos Olímpicos, estar ao lado do meu grande ídolo, o Joaquim Cruz. Eu nunca poderia imaginar. Imagina eu, criança, lá no interior do Paraná, quando eu vi aquele canal da TV, que eu poderia criar a possibilidade de um dia estar com aquela pessoa nos Jogos Olímpicos. Era uma coisa impossível, mas se tornou realidade. Por quê? Porque eu alimentei esse sonho, eu trouxe pra dentro de mim. E esse sonho, ele nunca adormeceu, ele sempre estava vivo, até que ele veio a florescer”
Qual recado tu deixa pra essa juventude?
“Eu estou aqui, estou aqui como exemplo, mostrar pra essa garotada, mostrar pra esse jovem, que tudo na vida é possível. É uma juventude que tem um potencial enorme e precisa mostrar pra que veio. Explorar esse potencial que cada um tem dentro de si. Então, não é só um incentivo, é um desejo que eu coloco pra essa juventude que está aí na perspectiva de conseguir algo na vida também”






COMENTÁRIOS