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Rio Grande,11/07/2026

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André Zenobini

O problema não é a concessão de 15 anos. É insistir em um modelo que já nasce velho.

Estamos discutindo quanto tempo deve durar um modelo que já demonstra sinais inquestionáveis de esgotamento. O Município deveria dedicar energia para estudar experiências que já funcionam em dezenas de cidades brasileiras: modelos de tarifa zero.

Há debates que acabam escondendo a verdadeira discussão e mostrando a incapacidade de avançarmos numa novidade em um tema que há anos é um gargalo rio-grandino. A Câmara de Vereadores da Cidade do Rio Grande na última quarta-feira, 08, realizou um debate que no centro das atenções estava o tempo da concessão do transporte coletivo: uma concessão de 15 anos, que pode chegar a 30. Para mim, essa nunca foi a principal questão e é uma escolha errada dos governantes. 

O verdadeiro problema é outro Estamos discutindo quanto tempo deve durar um modelo que já demonstra sinais inquestionáveis de esgotamento. A Prefeitura argumenta que ampliar o prazo da concessão dará segurança para investimentos, atrairá empresas e permitirá maior estabilidade ao sistema. O discurso mal faz sentido na teoria. Na prática, sabemos que qualquer empresa interessada em assumir o transporte coletivo do município já chega sabendo de uma realidade inevitável: o sistema precisará de subsídios públicos para sobreviver. Afinal, a modelagem utiliza o mesmo argumento que vem sendo utilizado nos últimos anos. 

Praticamente todas as cidades brasileiras de médio e grande porte já subsidiam seus sistemas de transporte coletivo. Algumas pagam parte da tarifa. Outras custeiam gratuidades. Em muitos casos, o equilíbrio financeiro depende diretamente do dinheiro público. Então vale a pergunta: faz sentido discutir uma concessão de 15 anos, que pode chegar a 30, para um sistema que, muito provavelmente, precisará ser constantemente redesenhado ao longo desse período? Estamos em 2026, com o mundo mudando em velocidade acelerada, e querem prender o Rio Grande a um contrato de até 30 anos?

O transporte urbano vive uma transformação profunda. O número de passageiros diminuiu. Os aplicativos mudaram a lógica da mobilidade. O trabalho remoto alterou os deslocamentos. Novas tecnologias surgem todos os anos. Firmar um contrato com horizonte de três décadas significa engessar uma cidade que ainda nem sabe como será sua realidade daqui a dez anos.

É justamente por isso que considero um erro a rejeição da emenda apresentada durante a tramitação do projeto. Independentemente do mérito técnico do texto, ela ampliava a possibilidade de revisão do modelo caso o sistema demonstrasse, na prática, que não atendia mais às necessidades da cidade. Ao rejeitá-la, a Câmara perdeu a oportunidade de preservar maior flexibilidade para futuras administrações. Prestou, na minha avaliação, um desserviço ao debate público.

Mas vou além para dizer que talvez estejamos discutindo a pergunta errada. Em vez de concentrar esforços apenas em entregar o transporte coletivo para uma empresa, o Município deveria dedicar energia para estudar experiências que já funcionam em dezenas de cidades brasileiras: modelos de tarifa zero. Não estou sendo utópico. Hoje existem municípios, governados por esquerda, direita e centro, que financiam o transporte por meio de fundos municipais de mobilidade, receitas oriundas de eventos, participação de grandes empreendimentos, compensações urbanísticas, recursos do orçamento e diferentes mecanismos de financiamento público. Cada cidade constrói sua própria engenharia financeira.

É evidente que Rio Grande não implantará um sistema de tarifa zero da noite para o dia. Mas alguém precisa começar esse debate. Pelotas já começou. Enquanto isso não acontece, seguimos presos a uma lógica limitada: quando conseguirem, publica-se uma licitação (até então encantada, já que três governos até agora não conseguiram), encontra-se uma empresa, assina-se um contrato longo, concede-se subsídio e torce-se para que o sistema funcione.

Isso não é planejamento. É apenas administrar uma crise permanente. Rio Grande merece discutir mobilidade urbana olhando para os próximos 30 anos, e não apenas para o próximo edital. Porque, se o transporte coletivo for continuar dependendo do dinheiro público, talvez seja hora de perguntar não apenas quem vai operar os ônibus mas qual modelo de cidade queremos financiar.




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