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Rio Grande,28/04/2026

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Elis Radmann

O voto é menos um ato de esperança e mais um exercício de defesa

A decisão do voto navega entre percepções, indignações, expectativas frustradas e falta de perspectiva

Estudo o comportamento do eleitor brasileiro há três décadas e percebo que sua forma de decidir está profundamente ligada à cultura política que vivemos. O eleitor constrói sua opinião a partir das informações do noticiário, das conversas em sua rede de relações, das viralizações nas redes sociais e da realidade política do seu município. A decisão do voto, portanto, navega entre percepções, indignações, expectativas frustradas e falta de perspectiva.


O sistema político e eleitoral brasileiro tem ensinado ao eleitor que a democracia se confunde com escândalos recorrentes de corrupção. Os “pedágios” e esquemas aparecem em todos os níveis da administração pública e nos três poderes. O eleitor olha, sente, pensa e não vê saída. Cada nova geração aprende que os políticos atuam em causa própria, que o tempo do governo não acompanha o tempo das pessoas.


Os exemplos são abundantes nas entrevistas de opinião realizadas pelo IPO – Instituto Pesquisas de Opinião. Uma pessoa recebe diagnóstico preliminar de câncer e o médico pede urgência: menos de um mês. O sistema marca os exames para seis meses depois, alegando prioridade. Uma família perde a casa em uma enchente e o governante promete solução; quando cumpre, já se passaram anos. A celeridade só aparece quando a mídia dá voz às pessoas. Não é por acaso que tantos temas acabam judicializados: pacientes recorrem à Justiça para conseguir remédio, exame ou quimioterapia.


Por que falar desse cenário para explicar o comportamento do eleitor? Porque é esse cidadão, que vive as mazelas, que enxerga injustiças e descasos, quem vai às urnas. Há muitos anos, quando começamos a escutar o eleitor, a descrença já era premissa, mas havia esperança. O eleitor criticava partidos, mas acreditava em candidatos e propostas, esperando melhorias em sua vida. Hoje, essa crença é mínima. O voto não nasce mais da expectativa ou da preferência.


O primeiro movimento do eleitor é definir o que não quer. Ele rompe com narrativas repetitivas, elimina nomes da sua lista e só depois aplica critérios de decisão. Esses critérios mudam a cada eleição, porque o eleitor refaz sua leitura da realidade a partir das experiências negativas. Ele vive em um modelo de sobrevivência política, tentando se defender daqueles que deveriam defendê-lo.


O voto, portanto, deixou de ser um ato de esperança. Tornou-se um exercício de defesa. O eleitor não escolhe apenas quem pode representá-lo; antes de tudo, descarta quem já demonstrou não estar ao seu lado. É nesse processo de exclusão que se revela a lógica atual da democracia brasileira: uma democracia marcada pela desconfiança, onde decidir em quem não votar é mais fácil do que acreditar em quem votar.




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