Marisa Martins
Melancolia
Outono É uma borboleta amarela? Ou uma folha que se desprendeu e que não quer tombar? - Mário Quintana
Olho pela janela a chuva que cai. Mansa e leve. Quase garoa, enevoando o verde.
Sensação de calmaria. De saudades. Não sei de quê. Sensações não se definem. Apenas são. À flor da pele.
Gosto morno de melancolia na tarde plúmbea. Na boca, suave doce-amargo. Agora sei o sabor dela, no outono.
Algumas folhas jazem na grama úmida. Não verão a primavera. Mas são lindas mesmo assim, misteriosamente lindas.
Nessa paisagem quase imobilizada, manuseio lembranças de antigo disco, rodando, rodando tantas vezes.
Yves Montand, Paris, amores que se foram, nostalgia. Jacques Prévert escrevendo Les Feuilles d’Automne, Les Feuilles Mortes, Folhas de Outono, As Folhas Mortas.
“Eu queria que você lembrasse
Os dias felizes que eram assim
Naquela época a vida era mais bela
As folhas caídas podem ser recolhidas
Como as memórias...”
Luz tênue do crepúsculo desenha o dia já trazendo aconchego noturno.
Estática, absorvo aquele momento, coração palpitando. O sabor único da melancolia doce-amarga, não ouviria, amanhã, como agora, o disco rodar, rodar.
Busco, então, o silêncio da noite que chega. Único ruido é o som de Folhas de Outono, Folhas Mortas rodando baixinho... “Folhas caídas podem ser recolhidas...”
A magia do inesperado encontro da melancolia em tarde chuvosa de outono, acalma ansiedades.
As folhas caem, uma a uma, a vida resta aguardando outro outono, outras folhas.
Outras melancolias doce-amargas...
P.S.: “Uma névoa de outono no ar raro vela
Cores de meia-cor pairavam no céu
O que indistintamente se revela
Árvores, casas, pontes, nada é meu...”
Fernando Pessoa
Obs.: Há versos em inglês, de Johnny Mercer, de Folhas de Outono, Autumn Leaves, interpretada por Nat King Cole e Frank Sinatra.



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