Marisa Martins
Tudo vai recomeçar
Vivem-se mil anos psicológicos em poucas décadas de anos cronológicos. E sobrará espaço para mais mil anos
TUDO VAI RECOMEÇAR
Marisa Martins
“Tão bom viver dia a dia
A vida, assim, jamais cansa
Nada jamais continua
Tudo vai recomeçar”
Mário Quintana
Coloco no lixo seco calendário de 2025. Primeiro ato no amanhecer do primeiro dia de janeiro de 2026. Com ele, divagações assomam.
O que é tempo cronológico? Alguém o definiu? Calendários, movimento de rotação, relógios? Criação abstrata ou concreta?
Também difícil definir tempo psicológico, tão nosso, marcado por emoções e lembranças. Linha de tempo sem tempo, sem medições. Contado por subjetivos momentos, experiências existenciais, conteúdos interiores prazerosos ou não.
Vivem-se mil anos psicológicos em poucas décadas de anos cronológicos. E sobrará espaço para mais mil anos. Esquecem-se calendários jogados no lixo. Nunca são esquecidas memórias de vivências.
Freudianos dirão: fuga do tempo cronológico. Respondo: particular decisão de redobrar qualidade de emoções do tempo psicológico.
Certa manhã, parque de Greenwich, Londres, diante do Observatório Real, que define Hora Mundial, também refleti.
Ali passa Meridiano de Greenwich – meridiano zero - referência para demarcar longitudes e fusos horários.
Acordo internacional de 1884 divide mundo em oriental, a leste, e ocidental, a oeste. Para leste, horas aumentam a cada fuso; para oeste, diminuem.
Olhava, às 11h55min, bola do tempo sobre prédio do observatório. Estava na metade do mastro; às 11h58min atingira o topo. Exatamente às 12 horas caiu. Hora mundial inicial. 8 horas no Brasil, hora oficial de Brasília.
Quatro fusos a oeste de Londres.
O que vi não importa. Tempo cronológico. Em 1º de janeiro de 2026 começou, à meia-noite, particular celebração de tempo psicológico, brindando sonhos e esperanças
Mário Quintana escolheu imagem da travessia de rio, no último dia do ano, deixando tudo na outra margem.
Não deixei tudo. Apenas momentos difíceis de 2025. Trouxe mochila-coração, com superações, novas alegrias e paz.
Não peço muitas coisas a Deus, como dizia Clarice Lispector. Só não quero me perder da mochila.
E atravessar o rio com ela, mais uma vez, em 2026. Calendário do coração aberto à Vida...
P.S.: E tudo vai recomeçar...
Foto: arquivo pessoal





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