Marisa Martins
Paraíso Branco
Há paraísos de todas as cores. Laguna dos Patos é azul. Encontrou-se paraíso branco em certo Ano-Novo.
PARAÍSO BRANCO
Marisa Martins
Há paraísos de todas as cores.
Laguna dos Patos é azul.
Encontrou-se paraíso branco
em certo Ano-Novo.
Navio partiu de Buenos Aires. Contornaria sul da América do Sul, aportando em Valparaíso, Chile.
Após escala em Montevidéu, zarpa à tardinha, rumo Madryn e Ilhas Malvinas. Ventos fortes.
Quase no encontro do Rio da Prata com Atlântico, rebenta cabo de rebocador que traciona chata carregada com contêineres e automóveis. Cruzam canal. Desativação de motores do navio. Inércia não impede choque. Atônita, vejo carros e contêineres boiando na água encapelada.
Com grande rombo no bico de proa, embarcação volta, dia seguinte, a Montevidéu. Só sai no quarto entardecer. Recuperada.
Foram-se sonhos de conhecer Malvinas, Puerto Madryn, Puerto Chacabuco. Viagem reduziu-se aos demais portos programados. Ficou frustração.
Tempos depois, oportunidade para mesmo roteiro, em sentido contrário, saindo de Valparaíso, é irrecusável.
Natal em Punta Arenas, Chile, e Ushuaia, Argentina. Passagem por Estreito de Magalhães, Cabo Horn, e o Canal de Beagle. Ilhas Malvinas. Ano-Novo em Buenos Aires.
Memórias retroagem ao Canal de Beagle. Manhã rompendo. Tangível a sensação de estar no fim do mundo.
Pedras emergem de águas cinza-chumbo, reflexo de pesadas nuvens. Vento glacial arde na pele. Inóspita paisagem, contudo, é de paz e harmonia.
Meio da manhã. Como milagre, nuvens se desfazem. Sol transforma água em translúcido espelho. No meio do caminho, Port William, encravado entre cerros.
Cruzando outras paradisíacas águas, parecia impossível espanto com novas paisagens. Há paraísos, então descobri, de todas as cores. Laguna dos Patos é azul. Encontrou-se, para retorno do espanto, nas lonjuras do sul antártico, um paraíso branco.
Águas mansas, frio ameno, glaciares, picos nevados mesclados ao verde, navio deslizando suave, apagam limites entre realidade e sonho.
Até hoje me pergunto: estive em paraíso branco? Sim, respondo. Estive no paraíso branco, onde mundo termina. Ou começa?
Volto a ele neste final de 2025, início de 2026. Em viagem de recordações.
Desde o paraíso azul...
P.S: Seja 2026 para todos, de navegação em águas de Paz. De qualquer cor.
Foto: arquivo pessoal





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