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Rio Grande,24/01/2026

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José Vitor Silva

Dudinha joga onde o Brasil ainda não olha

A trajetória da rio-grandina Eduarda Vieira de Oliveira expõe como o futsal feminino do interior segue formando atletas decisivas enquanto o centro do país ainda hesita em enxergar.


Dudinha joga onde o Brasil ainda não olha



Aos 14 anos, Eduarda Vieira de Oliveira, a Dudinha, divide sua rotina entre dois mundos que raramente se encontram no esporte brasileiro: o futsal de alto rendimento do interior e a base de um clube que disputa o topo do futebol nacional. Vinculada ao Sport Club Internacional, ela segue sendo protagonista pela URFF de Roque Gonzales, equipe pela qual voltou a decidir uma competição nacional no último fim de semana. Não se trata de um caso isolado de talento precoce, mas de um sintoma claro: o Brasil continua formando atletas longe do eixo que costuma receber os holofotes.


Formar antes de aparecer


Dudinha começou no futsal aos três anos, em Rio Grande. Não houve roteiro especial, nem atalhos. Vieram as escolinhas, os campeonatos regionais, os estaduais masculinos na infância e, depois, a transição para o futsal feminino federado. Esse caminho, comum para quem cresce fora dos grandes centros, costuma ser invisível, até que o rendimento se torne impossível de ignorar.


Ao passar por projetos como CR15, Grêmio Ball e Princesas do Sul, Dudinha construiu algo que não se aprende em peneiras tardias: leitura de jogo, competitividade e adaptação a diferentes contextos. O talento apareceu cedo, mas foi a repetição de ambientes exigentes que transformou potencial em constância.


URFF não revela atletas, sustenta processos


Quando Dudinha chega à URFF, em 2023, o cenário muda de escala. O clube de Roque Gonzales oferece aquilo que falta a muitos projetos: continuidade. Os títulos estaduais, as campanhas nacionais e as conquistas invictas não são episódios isolados, mas parte de um processo que permite às atletas errar, evoluir e assumir responsabilidades dentro da quadra.


A final da Copa Santiago de Futsal Menor Sub-15, vencida de forma invicta pelo segundo ano consecutivo, é um recorte preciso disso. Dudinha marcou dois dos três gols da decisão. Não foi atuação fora da curva, foi repetição do que ela já havia feito em outras categorias, em outros campeonatos, em outros contextos.

O Internacional entra na história, mas não apaga o caminho


O convite do Internacional veio em 2023, consequência direta do que Dudinha produzia jogando futsal. O vínculo assinado em 2025 exigiu mudança para a região metropolitana e ampliou o calendário competitivo no futebol de campo. Ainda assim, a atleta seguiu atuando pela URFF.


Essa escolha não é detalhe. Ela evidencia uma realidade que o esporte feminino conhece bem: enquanto o campo oferece projeção institucional, é no futsal que muitas atletas seguem encontrando espaço para competir, decidir e se desenvolver tecnicamente. Dudinha transita entre esses universos sem perder protagonismo em nenhum deles.


Conquistas que explicam, mas não definem


A lista de títulos, artilharias e pódios impressiona, mas não é o que sustenta a análise. O ponto central está na regularidade. De 2020 a 2025, Dudinha esteve presente em decisões, finais e campanhas relevantes em praticamente todas as categorias que disputou, no futsal e no campo, no interior e nos grandes centros.


Esse padrão raramente é fruto de acaso. Ele nasce de formação precoce, ambientes competitivos e da capacidade de lidar com contextos distintos sem perder desempenho. Qualidades que, curiosamente, seguem sendo subvalorizadas quando surgem longe do eixo tradicional.


O que a história de Dudinha revela, e o que ainda esconde


A trajetória da rio-grandina expõe um paradoxo antigo: o Brasil produz talento em abundância, mas ainda depende de projetos locais para lapidá-lo. Se hoje Dudinha veste o vermelho do Internacional, isso só foi possível porque antes vestiu camisas que não aparecem nos rankings nacionais.


Em 2026, ela inicia a preparação para a Liga de Desenvolvimento CBF Sub-16 e para novas competições ao longo do ano. O futuro segue aberto, como deve ser aos 14 anos. O presente, porém, já é revelador.


Dudinha não joga onde o país olha. Joga onde o jogo acontece. E talvez seja justamente por isso que continua decidindo partidas enquanto tantos outros ainda esperam ser descobertos.



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