Mais que um show: MV Bill transforma Rap Contra o Frio em encontro entre cultura, solidariedade e periferia em Rio Grande
Festival reuniu mais de 2 mil pessoas, arrecadou doações para famílias em situação de vulnerabilidade e reforçou o papel social do hip-hop na cidade
Foto: José Vitor Silva/ O Litorâneo Mais de duas mil pessoas ocuparam o Centro de Eventos do Rio Grande no último domingo, 07, para acompanhar a 11ª edição do Rap Contra o Frio, festival que há mais de uma década une música, mobilização social e cultura urbana. Com entrada gratuita, o evento teve como principal atração o rapper MV Bill, um dos nomes mais influentes da história do hip-hop brasileiro, mas foi além do espetáculo musical: transformou o espaço em um ponto de encontro entre arte, solidariedade e comunidade.
Ao longo de 12 horas de programação, o público acompanhou apresentações musicais, intervenções de graffiti, atividades esportivas, feira cultural e ações voltadas à arrecadação de agasalhos, cobertores e alimentos para famílias em situação de vulnerabilidade social. A iniciativa, criada em 2012 pelo produtor cultural André Dizéro, consolidou-se como uma das principais manifestações da cultura hip-hop no interior do Rio Grande do Sul.
Um festival construído pela base
Após cerca de 12 anos sem se apresentar em Rio Grande, MV Bill destacou a relevância do projeto e sua capacidade de permanecer ativo mesmo distante dos grandes circuitos culturais do país. “O projeto é tão importante que merece ser conhecido pelo Brasil inteiro. Merece apoio do Brasil inteiro. E mesmo sem apoio, os eventos continuam acontecendo porque as pessoas acreditam muito no que estão fazendo”, afirmou em entrevista ao O Litorâneo.
Para o artista carioca, o Rap Contra o Frio representa uma dimensão do hip-hop frequentemente ignorada por quem observa a cultura apenas pelo viés do entretenimento. “Hoje existe mais de uma cena de rap. Tem um rap voltado para a diversão, para o entretenimento, e tem esse rap que encontra as pessoas que precisam de um alento, de uma informação, de uma ajuda. É nesse hip-hop que eu acredito”, declarou.
A fala dialoga diretamente com a essência do festival, que desde sua criação utiliza a cultura urbana como ferramenta de mobilização comunitária.
Solidariedade que atravessa gerações
O Rap Contra o Frio nasceu com uma proposta simples: utilizar a força de atração do hip-hop para impulsionar campanhas de arrecadação durante o inverno. Treze anos depois, o projeto acumula números expressivos.
Segundo a organização, mais de 50 mil peças de roupa e cerca de 25 toneladas de alimentos já foram arrecadadas e distribuídas em diferentes comunidades rio-grandinas. Apenas na edição de 2025, foram recolhidos aproximadamente 500 quilos de alimentos e quase duas mil peças de agasalhos.
Neste ano, a mobilização voltou a reunir famílias inteiras, jovens, crianças, artistas independentes e moradores de diferentes bairros da cidade em torno de uma causa comum. “A música também passa pela diversão, mas ela tem uma função muito importante. Quando você chega e vê pessoas de todas as idades, famílias, profissionais, reunidas no mesmo espaço, percebe que o pano de fundo é maior que o show. É integração, é solidariedade”, observou MV Bill.
Kmila CDD reforça conexão entre palco e comunidade
Dividindo o palco com o irmão durante a apresentação em Rio Grande, Kmila CDD teve participação de destaque no espetáculo. Nascida na Cidade de Deus, no Rio de Janeiro, Kamila Barbosa construiu sua trajetória dentro do rap ao lado de MV Bill, participando de gravações marcantes como Estilo Vagabundo, O Bonde Não Para e de grande parte das faixas do álbum Causa e Efeito.
As iniciais "CDD", incorporadas ao nome artístico da rapper, fazem referência ao bairro Cidade de Deus, comunidade onde os dois cresceram e que se tornou uma das principais inspirações de suas produções musicais.
Durante o show, a presença de Kmila ajudou a construir uma apresentação que percorreu diferentes momentos da carreira de MV Bill, fortalecendo a identidade coletiva que sempre marcou a trajetória dos irmãos dentro do hip-hop nacional.
O legado de uma voz histórica do rap nacional
Nascido na Cidade de Deus, no Rio de Janeiro, MV Bill tornou-se uma das figuras mais importantes do rap brasileiro ao construir uma trajetória marcada pelo ativismo social e pela denúncia das desigualdades enfrentadas pelas periferias.
Desde o lançamento de trabalhos como Traficando Informação e da emblemática canção Soldado do Morro, o artista passou a ocupar espaço central nos debates sobre violência urbana, exclusão social e juventude periférica.
Sua atuação extrapolou a música. Ao lado de Celso Athayde, participou da criação da Central Única das Favelas (CUFA) e produziu obras de forte impacto social, como o documentário Falcão – Meninos do Tráfico, que levou para a televisão aberta a realidade de jovens envolvidos com o tráfico de drogas em diferentes regiões do país.
Durante a entrevista, o rapper também refletiu sobre os desafios que seguem presentes nas comunidades brasileiras. “Ainda existe muito distanciamento quando a gente fala de relações sociais. As políticas públicas continuam insuficientes. Os projetos sociais são essenciais, mas eles não deveriam substituir aquilo que é responsabilidade do poder público”, avaliou.
Espaço para quem está construindo o futuro
Além de receber um nome consagrado nacionalmente, o Rap Contra o Frio manteve uma de suas características mais importantes: abrir espaço para artistas independentes e coletivos culturais da região.
Ao longo de sua história, mais de cem artistas já passaram pelos palcos do festival. Para MV Bill, fortalecer essas trajetórias é fundamental para a renovação da cena. “Tem gente que diz que o verdadeiro rap acabou, mas isso não é verdade. Tem muita gente produzindo, fazendo trabalho sério em todas as cidades do Brasil. O problema é que muitas vezes essas pessoas não recebem visibilidade. Quem gosta de rap precisa procurar, porque a cena continua viva”, afirmou.
A declaração encontra eco na própria trajetória do evento, que se tornou uma vitrine para novos talentos da cultura urbana da região sul do Estado.
Quando a cultura ocupa seu papel social
Em tempos em que eventos culturais frequentemente são medidos apenas pelo tamanho do público ou pela repercussão nas redes sociais, o Rap Contra o Frio segue apostando em outra lógica: a de que arte e transformação social podem caminhar juntas.
A presença de mais de duas mil pessoas para assistir a um show de rap em Rio Grande demonstra a força de uma iniciativa construída coletivamente e sustentada pelo envolvimento comunitário. Mais do que reunir fãs diante de um palco, o festival reafirmou sua principal característica ao longo de 11 edições: utilizar a cultura como ponto de partida para criar redes de apoio, pertencimento e solidariedade.
E foi justamente essa dimensão que pareceu resumir o domingo no Centro de Eventos. Enquanto MV Bill subia ao palco após mais de uma década longe da cidade, milhares de pessoas celebravam não apenas a música, mas também a capacidade de uma comunidade de transformar expressão artística em ação concreta.





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