Parque do Albardão amplia debate sobre o futuro da pesca na região
Oficializada em 2026, a maior unidade de conservação marinha do país reúne diferentes visões sobre os impactos e as perspectivas da medida para a região
Foto - Acervo ICMBio A pesca representa um dos pilares culturais, históricos e econômicos do Rio Grande. Presente há gerações na rotina do município, a atividade segue sendo fonte de renda para milhares de famílias e movimenta uma cadeia produtiva considerada estratégica para a economia local. Neste cenário, a criação do maior parque nacional marinho do Brasil trouxe uma nova realidade ao extremo sul gaúcho, despertando preocupação ao setor pesqueiro.
"Se o peixe está na mesa é porque existe o pescador." A frase, utilizada pelo delegado sindical do Sindarpes (Sindicato dos Armadores da Pesca do Estado do Rio Grande do Sul), Alexandre Novo, resume o sentimento da categoria diante da criação do Parque Nacional do Albardão. Segundo ele, a preocupação está relacionada aos possíveis impactos que a unidade de conservação poderá trazer para uma atividade considerada fundamental para a economia local. "A atividade da pesca no Rio Grande é de extrema importância para a economia e para milhares de empregos que giram em torno da atividade", afirma.
Embora o decreto tenha sido assinado apenas neste ano, as discussões sobre a criação do Parque Nacional do Albardão vêm ocorrendo há anos. Em 2024, audiências públicas realizadas em municípios da região reuniram pescadores, moradores, ambientalistas e autoridades para debater a proposta, evidenciando as diferentes visões sobre os possíveis impactos da iniciativa.
O tema também tem motivado a organização de novas mobilizações por parte de entidades representativas da pesca. Segundo Alexandre Novo, o setor pretende intensificar as discussões sobre o assunto nos próximos dias, buscando ampliar o debate em torno dos possíveis impactos da medida para a atividade pesqueira.
O que é o Parque Nacional do Albardão?
Conhecida pela riqueza ambiental e pela extensa faixa costeira que se estende até a Barra do Chuí, a região do Albardão passou a abrigar a maior unidade de conservação marinha do país. Oficializado em março deste ano, o parque abrange cerca de 1,6 milhão de hectares, e tem como objetivo proteger ecossistemas costeiros e oceânicos considerados estratégicos para a conservação da biodiversidade.
A área é reconhecida como um importante ponto de encontro de correntes marinhas e serve de refúgio, rota migratória e área de reprodução para diversas espécies da fauna marinha.
Entre os animais protegidos estão a toninha, considerada o cetáceo mais ameaçado do Atlântico Sul, além de baleias, golfinhos, lobos e leões-marinhos, tartarugas marinhas, aves migratórias, tubarões, raias e diferentes espécies de peixes e invertebrados.
Segundo dados do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), a preservação dessas áreas também contribui para a manutenção dos estoques pesqueiros ao proteger locais de reprodução, alimentação e crescimento de diversas espécies marinhas.
A região abriga ainda importantes patrimônios geológicos e paleontológicos, como os concheiros e as Dunas do Albardão, reconhecidas como geossítios de relevância nacional. A gestão da unidade ficará a cargo do ICMBio, vinculado ao Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima.
Além das discussões envolvendo a pesca, o debate também alcança outros interesses econômicos ligados ao litoral sul gaúcho, como projetos de geração de energia eólica offshore e a exploração de petróleo na Bacia de Pelotas.
O que ainda será definido
Apesar de o parque já ter sido oficialmente criado, uma série de definições sobre seu funcionamento ainda dependerá da elaboração do Plano de Manejo, documento que estabelecerá as regras de uso da área, o zoneamento da unidade e as diretrizes para atividades permitidas ou restritas.
Segundo informações divulgadas pelo ICMBio, a construção do plano ocorrerá de forma participativa, após a formação da equipe gestora e do conselho da unidade de conservação. Até lá, diferentes setores seguem acompanhando os desdobramentos da medida e aguardam as definições que poderão impactar a região nos próximos anos.
Enquanto o parque inicia sua trajetória como a maior unidade de conservação marinha do país, o desafio será conciliar a preservação de um dos ecossistemas mais importantes do litoral brasileiro com uma atividade que há gerações faz parte da história, da cultura e da economia de Rio Grande.
Entre os representantes da pesca, o entendimento é de que a discussão está longe de terminar. Para Alexandre Novo, o setor pesqueiro continuará buscando espaço para apresentar suas preocupações e defender a atividade. "Nós vamos seguir lutando para que o peixe continue na mesa do brasileiro, do gaúcho, do rio-grandino, e o setor pesqueiro vai resistir sim", finaliza.





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