2º Seminário Técnico Regional da Cebola debate desafios climáticos e fortalecimento da cebolicultura
Evento reuniu produtores rurais, pesquisadores, técnicos e representantes de instituições do setor agrícola na Ilha do Leonídio na última quinta-feira, 28
Foto: Divulgação Produtores rurais, pesquisadores, técnicos e representantes de instituições do setor agrícola reuniram-se, na última quinta-feira, 28, no Salão da Comunidade Nossa Senhora de Fátima, na Ilha do Leonídio, para o 2º Seminário Técnico Regional da Cebola. O evento integra um circuito regional de seminários itinerantes que percorre os municípios produtores da região litorânea.
A iniciativa foi promovida pela Secretaria de Município da Agricultura e Pecuária (SMAP) e Emater/RS-Ascar, em parceria com a Embrapa e o Subcomitê da Cebolicultura. O objetivo central do encontro foi fortalecer a cadeia produtiva da cebola na região, promovendo a qualificação técnica, a troca de experiências e a atualização sobre tecnologias aplicadas à produção agrícola.
Com foco em temas como manejo, produtividade, sustentabilidade e adaptação às mudanças climáticas, a ação faz parte de uma articulação regional que envolve também os municípios de São José do Norte, Tavares e Mostardas. O evento possibilitou debates focados em sustentabilidade, inovação tecnológica e na valorização da produção local, reforçando o papel estratégico da cebolicultura para a economia e para a subsistência da agricultura familiar no litoral sul.
Representando a Secretaria de Município da Agricultura e Pecuária (SMAP), o secretário adjunto, Cledenir Mendonça, destacou que o seminário é um instrumento fundamental para a qualificação e o aprimoramento técnico dos produtores. Ele enfatizou que, embora a cebola seja cultivada na região há cerca de 150 anos e carregue uma forte identidade cultural, o momento atual exige um olhar atento para a modernização.
“Quando a gente fala em novos modelos tecnológicos, estamos nos referindo a um pacote que envolve o controle do solo, o uso correto de insumos, manejo de doenças, irrigação e maquinário. Hoje nós já temos o plantio direto e até máquina de colher cebola na região”, explicou. Segundo ele, essa evolução é vital para que a pequena propriedade consiga competir de igual para igual com os grandes centros produtores nacionais.
Tradição histórica e modernização no campo
A produção de cebola carrega uma forte relevância histórica e econômica para o Rio Grande e todo o litoral do estado. Registros apontam que, desde o século XIX, a região já se destacava na produção e exportação do produto, com embarques realizados pelo Porto, chegando a figurar, em determinados períodos, entre os principais polos produtores do país.
Atualmente, a cultura permanece como uma das principais atividades da agricultura familiar local, especialmente em áreas como a Ilha do Leonídio. Ao longo dos anos, a cebolicultura passou por um processo de modernização, incorporando técnicas como irrigação, mecanização e sistemas de manejo mais eficientes. Apesar dos avanços, o setor ainda enfrenta desafios complexos relacionados à concorrência nacional, à comercialização e à redução da rentabilidade em determinados períodos.
Qualificação e competitividade frente aos desafios econômicos
O chefe do escritório da Emater/RS-Ascar em Rio Grande, Rogério da Silveira, destacou que a qualificação contínua é fundamental para os produtores enfrentarem o cenário competitivo atual.
“Todos os eventos são muito importantes na qualificação dos produtores, porque se convida pessoas com bastante experiência para falar sobre assuntos técnicos”, afirmou.
Ele também ressaltou que a presença de diferentes instituições enriquece o debate e fortalece a produção local. “Tivemos palestrantes da Embrapa, da Emater, da FURG, do IFRS, então é um ambiente bastante eclético. E sempre vai ser importante qualificar, principalmente no momento que vivemos, de muita concorrência.”
O dirigente ainda alertou para os impactos econômicos recentes que afetam o setor. “No último ano o preço da cebola foi muito baixo, abaixo do custo de produção, o que acaba descapitalizando os produtores e levando muitos a desistirem da atividade”, completou.
Para os pequenos produtores, o acesso à informação de qualidade é a principal ferramenta de defesa. O produtor de São José do Norte e representante da Cooperativa dos Agricultores Familiares (COOAFAN), Flávio Machado, reforçou essa necessidade.
“Esse tipo de informação é muito relevante para a gente poder tomar as decisões mais acertadas possível. Como pequeno agricultor familiar, a gente tem uma disputa muito grande com as grandes produções. Então é importante estar informado para errar menos e tomar decisões mais seguras”, conta.
O seminário também abriu espaço para relatar a realidade de quem vive o dia a dia da lavoura por gerações, como a produtora Maria Valquíria Mendonça, da localidade da Palma, que compartilhou sua trajetória na agricultura familiar.
“Eu tinha sete anos de idade quando comecei a ir para a terra com meu pai. Hoje tenho 69 anos e sigo trabalhando. Meu pai era produtor, meu avô também. É uma tradição de família”, lembrou.
Apesar do orgulho pela identidade cultural e pelo sustento que a atividade proporciona, Maria Valquíria não escondeu as dificuldades financeiras que a categoria enfrenta no momento: “Hoje não dá nem para pagar as despesas. Quando vamos vender não vale nada.”
Clima em debate: os impactos do El Niño na região
Um dos momentos mais aguardados da programação foi o painel sobre as previsões do fenômeno El Niño e seus possíveis impactos na agricultura regional, ministrado pelo Dr. Ricardo Gotuzzo, meteorologista e climatologista do Centro Interinstitucional de Observação e Previsão de Eventos Extremos da FURG (CIEX/FURG).
De acordo com o pesquisador, os modelos climáticos atuais indicam a possibilidade de chuvas acima da média entre setembro e outubro, período considerado crítico para o desenvolvimento da cultura da cebola. “Os prognósticos atuais apontam anomalias de chuva entre 50 e 100 milímetros acima da média para a região”, explicou.
No entanto, o especialista ponderou que as previsões sofrem atualizações mensais e exigem cautela. “Cada evento El Niño é diferente. Ainda não é possível afirmar exatamente como essas chuvas vão se comportar”, explicou, reforçando a necessidade do monitoramento constante. “A gente pede sempre que os agricultores acompanhem as atualizações mensais para um planejamento mais seguro."






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