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Rio Grande,10/06/2026

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Elis Radmann

Mulheres para a política ou política para as mulheres?

O Brasil convive com uma contradição que merece reflexão. As mulheres são maioria da população e também do eleitorado. Participam das decisões familiares, lideram comunidades, estão presentes nos ambientes de trabalho e desempenham papel central na formação das novas gerações. Ainda assim, permanecem minoria nos espaços de poder e representação política.


Diante dessa realidade, surge uma pergunta: precisamos de uma política para as mulheres ou de mais mulheres vivendo a política de forma orgânica?


Historicamente, a política brasileira foi construída a partir de uma lógica predominantemente masculina. As estruturas partidárias, os espaços de decisão e até mesmo a linguagem política foram moldados em um contexto no qual a participação feminina era limitada. Embora muitos avanços tenham ocorrido nas últimas décadas, ainda persistem barreiras simbólicas e culturais que dificultam a ampliação da presença das mulheres na política.


Em muitos casos, quando uma mulher conquista um espaço de liderança, sua presença é tratada como exceção. Surge o debate sobre cotas, representatividade, etc. Esses mecanismos são importantes para corrigir desigualdades históricas, mas não resolvem sozinhos a questão central. O verdadeiro desafio está em transformar a cultura política.


A mudança acontece quando as mulheres deixam de ser vistas como convidadas e passam a ser reconhecidas como protagonistas legítimas da vida pública. Não se trata apenas de criar oportunidades para que ocupem cargos eletivos, mas de fortalecer a percepção de que a política também é um espaço natural para elas.


Essa transformação começa muito antes das eleições. Ela nasce na educação, nas referências que oferecemos às meninas e na forma como falamos sobre liderança e poder. Durante muito tempo, a sociedade associou a política ao confronto, à disputa e ao exercício da autoridade, características tradicionalmente vinculadas ao universo masculino. Como consequência, muitas mulheres cresceram sem se imaginar ocupando esses espaços.


Há uma exigência silenciosa que requer que mulheres demonstrem mais preparo, mais resultados e mais credenciais para obter o mesmo reconhecimento concedido aos homens. É como se a competência feminina ainda precisasse ser constantemente comprovada.


A presença das mulheres na política não pode ser entendida apenas como uma questão de representatividade. Trata-se também de ampliar perspectivas. Mulheres acumulam experiências relevantes em áreas fundamentais para a vida em sociedade, como educação, saúde, assistência social, gestão de pessoas e organização comunitária. São conhecimentos que enriquecem o debate público e contribuem para a construção de políticas mais conectadas com a realidade.


Por isso, talvez a pergunta inicial precise ser reformulada. Não se trata de escolher entre uma política para mulheres ou mulheres para a política. O desafio é construir uma democracia em que a presença feminina seja tão natural quanto necessária.

Quando meninas crescerem acreditando que podem ocupar qualquer espaço de decisão, quando mulheres não precisarem justificar sua presença na vida pública e quando a sociedade enxergar a liderança feminina como algo cotidiano, estaremos mais próximos de uma democracia verdadeiramente representativa.


Política não é lugar de homens ou de mulheres. Política é lugar de cidadania.




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