Laura Crizel
Retrospectiva da campanha de O Agente Secreto até o Oscar 2026
Mesmo sem a vitória, não há do que se queixar da campanha nos Estados Unidos, enquanto na Europa, grandes erros atrapalharam o sonho brasileiro
A 98° edição do Oscar marcou o fim da temporada de premiações de 2025, com grandes surpresas e outras nem tanto.
Infelizmente nossos representantes brasileiros, a equipe de “O Agente Secreto” e o diretor de fotografia de “Sonhos de Trem”, Adolpho Veloso, acabaram passando em branco. Todavia, não devemos lamentar as derrotas, mas sim comemorar a, cada vez mais comum, participação brasileira na noite mais importante da indústria cinematográfica.
Oscar 2026
A noite da premiação não foi de grandes surpresas, “Uma Batalha Após a Outra” tomou para si as principais estatuetas da noite, seguido de “Pecadores”, “Frankenstein" e “Fórmula 1”.
Entre os momentos que chamaram maior atenção podemos citar a estatueta de Melhor Atriz Coadjuvante para Amy Madigan por seu papel como a vilã Tia Gladys no filme “A Hora do Mal”, uma vez que edições as quais a academia premia atuações em filmes de terror são raríssimas e, nesta temporada, tivemos Amy Madigan e Michael B. Jordan recebendo a honraria.
Outro momento curioso da noite foi o raro empate ocorrido na entrega do prêmio de Melhor Curta-Metragem. É apenas a sétima oportunidade em 98 anos que uma categoria termina empatada, segunda vez em Curta-Metragem. A vitória foi dividida entre os curtas “Os Cantores” da Netflix e o francês “Duas pessoas trocando saliva”.
Para nós brasileiros, o maior choque foi o triunfo do filme norueguês “Valor Sentimental” sobre “O Agente Secreto” na categoria de Melhor Filme Internacional. Na edição passada desta coluna, comentei sobre a dificuldade do filme de Kleber Mendonça Filho diante dos europeus, ainda assim o otimismo era grande e o baque durante o não-anúncio de nossa vitória foi maior ainda.
Reflexões da Campanha
Qualquer reclamação do circuito de campanha nos Estados Unidos da Neon, distribuidora de “O Agente Secreto” e de “Valor Sentimental” é desonesta e anacrônica.
A Neon tratou as campanhas de seus 4 filmes estrangeiros indicados com bastante profissionalismo e sem preferências por um ou por outro, caso diferente da distribuidora no Reino Unido, a Mubi.
Desde cedo ficou perceptível a preferência da Mubi por “Valor Sentimental” em relação aos outros filmes estrangeiros da distribuidora e aos americanos, inclusive, prejudicando consideravelmente a campanha da obra brasileira no velho continente, como pode ser visto no desempenho do filme estrelado por Wagner Moura no Bafta, principal prêmio da academia britânica de cinema.
Relação com a Academia Brasileira de Cinema
Para além dos problemas com a Mubi, “O Agente Secreto” enfrentou problemas com a Academia Brasileira de Cinema que, por muito pouco, não escolheu o filme como o candidato brasileiro ao Oscar.
O filme saiu vitorioso na disputa contra o vencedor do Urso de Ouro no Festival de Berlim “O Último Azul” de Gabriel Mascaro, o vencedor do GdA Director’s Award no Festival de Veneza “Manas” de Marianna Brennand Fortes e outras 13 produções nacionais. Apesar da preferência de parte da Academia Brasileira por “Manas”, a pressão popular foi crucial na decisão final da escolha pelo filme de Kleber Mendonça.
Durante a live de anúncio do representante brasileiro, a presidente da Comissão Brasil Oscar 2026, Sara Silveira, distribuiu indiretas e rebateu críticas de jornais sobre a discordância entre os membros da academia à respeito da escolha do filme. Sara ainda encerrou seu discurso de anúncio da candidatura de “O Agente Secreto” com a frase: “Imprensa, aí está o que tanto queriam”.
Os problemas com nossa academia ainda seguiram, com o envio de “Manas” como o candidato brasileiro ao Prêmio Goya, principal premiação da Academia de Cinema da Espanha, no lugar de “O Agente Secreto”.
O filme de Marianna Brennand Fortes saiu derrotado no Goya para o candidato da argentina “Belén - Uma História de Injustiça” de Dolores Fonzi.
Para parte da imprensa especializada, como o crítico de cinema e votante do Critics Choice Award, Waldemar Dalenogare, o envio de “Manas” ao Goya serviu como consolação para a equipe da obra de Marianna Brennand Fortes, com a academia observando a premiação como de categoria inferior na temporada.
Dalenogare comenta que, o não-envio de O Agente Secreto ao Goya tirou a oportunidade da obra brasileira de mais uma vitória em premiações européias, ajudando na divulgação do filme pelo velho continente, que – como comentado anteriormente – enfrentou problemas, principalmente, por parte da distribuição e campanha da Mubi no Reino Unido.
O Oscar não veio, mas 2025 trouxe tantas joias raras
Ao fim, apesar dos problemas durante a temporada e das derrotas no Oscar, devemos sim celebrar a participação brasileira na premiação mais importante do cinema mundial e, mais do que isso, celebrar um ótimo 2025, com produções nacionais excelentes que fizeram bonito nos Festivais de Berlim, Cannes e Veneza e nos cinemas de nosso país.
Assistam e celebrem “O Agente Secreto”, mas não esqueçam de “Homem com H”, “O Último Azul”, “Manas”, “Oeste Outra Vez”, “Enterre Seus Mortos”, “O Filho de Mil Homens”, “Chico Bento e a Goiabeira Maraviosa”, “Os Enforcados”, “Baby” e tantas outras obras- primas produzidas por nossos cineastas.








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