Marisa Martins
Onde Fica Salaverry?
“É o tempo da travessia. Se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos”. - Fernando Pessoa
Onde fica Salaverry, perguntei-me certa vez. Questionei sempre onde ficam lugares, rotas, caminhos, estrelas, geleiras, desertos ou florestas. Sóis e luares. Continentes, lagos, rios, ilhas e oceanos.
Em encontro atemporal, transcendental, conversei com Fernando Pessoa. Ali restaurou-se o tempo de ousar que, acomodada, quase perdera.
Jamais haverá respostas para todos os questionamentos. É bom que seja desta forma. A vida assume-se, desafiante.
Ousei, assim, sempre questionar, como ousei tentar responder. Jamais ficaria “à margem do caminho”, estagnada.
Desta forma, junto à instauração do tempo de ousadia, é necessária a coragem para iniciar a travessia. De polo a polo. Do ocidente ao oriente. De auroras a anoiteceres.
Nas geografias e na vida.
Ora, direis, filosofias, utopias, fantasias, quando a pergunta é: onde fica Salaverry? Respondo-a.
Salaverry fica no centro do simbolismo de ousar travessias. Entre o polo norte e o polo sul, em paralelo próximo à Linha do Equador. No Peru. À beira do Pacífico.
Ali, contemplando um velho barco abandonado na areia, vendo gente simples, muito simples, comprando peixe, atingiu-me em cheio a singeleza do que pode ser a vida.
Ali, no meio da travessia, vislumbrei a essência das palavras do poeta.
Sem escolha pela vontade de viver, sem metades de felicidade, tristeza ou de coragem, não conheceria Salaverry.
Não descobriria o barco na areia, pessoas de tal forma simples, peixes, tantos peixes. A singeleza da vida.
Onde fica Salaverry?
Fica como marco da travessia. Onde não há mais o medo de ousar. A margem física, e de nós mesmos, é superada.
Mesmo que não responda a todas as perguntas, encontrei Salaverry.
Como encontrei tantas coisas que se integram às memórias, em invisíveis conexões.
Existiriam se não tivesse ousado?
P.S.: “Não há saudade mais dolorosa do que das coisas que nunca foram”...
Fernando Pessoa.








COMENTÁRIOS