Da madeira ao plástico, passando pelo botox

Da madeira ao plástico, passando pelo botox

Diga-me que prendedores usas e te direi quem és

Por Daniel Baz 16/06/2021 - 19:37 hs

Aqui em casa usamos dois tipos de prendedores de roupa: aqueles feitos de madeira e outros coloridos, de plástico. Estes últimos não nos servem em todos os momentos. São pouco confiáveis, quebradiços, e suas molas não têm força suficiente para suspender os trajes mais robustos. Até se saem bem com meias de tecido barato, calcinhas, panos de prato e máscaras. Podem segurar bermudas leves e uma ou outra camisa de verão. Contudo, se me arrisco a usá-los para prender no varal um moletom, uma calça jeans, uma cueca boxer ainda encharcada ou um par de meias comprado na FEARG (que, como todo rio-grandino sabe, costumam pesar a metade da ovelha que foi tosquiada para fazê-las), tenho certeza de que encontrarei estas vestimentas despencadas sobre a terra do meu pátio no dia seguinte. É o tipo de coisa que ninguém nos ensina. Vamos aprendendo (e prendendo) na prática. Na hora de içar ponchos e jaquetas, mochilas e japonas, são os prendedores de madeiras os únicos realmente aptos para o serviço, e só adquiro os tipos de polipropileno quando seus concorrentes mais eficazes estão em falta no mercado.

A esta altura, a maioria dos leitores deve ter pensado que este negócio de crônica me subiu de vez à cabeça, visto eu estar aqui, no meio de uma quarta-feira, onde ainda há muito a ser realizado até o fim da semana, preenchendo este espaço generosamente cedido n`O Litorâneo com banalidades que não levam a lugar algum. Estes certamente sequer iniciaram a leitura da frase anterior e trataram de se ocupar de atividades mais nobres do que acompanhar as observações vulgares que abrem este texto. Aos que seguem comigo, contudo, antecipo que os recompensarei com uma confissão indiscreta, pois é óbvio que não estou aqui para descrever amenidades de quintal. Se gasto o espaço deste jornal falando de prendedores é porque eles são apenas o meio a partir do qual desejo expor uma severa falha de caráter que descobri em mim há pouco tempo, e que me deixou como um daqueles assassinos descompensados de Poe, desejoso de revelar a todos as barbaridades que cometi.

Percebam que aqui em casa não usamos os prendedores exclusivamente para as roupas. Se sobra um saco de farofa ou de batata palha no almoço, se uma bolachinha recheada não é consumida até o final, ou nas ocasiões em que o sal, o arroz e o açúcar ficam abertos sobre a mesa, enfim em qualquer uma dessas circunstâncias nas quais embalagens distintas precisam de um lacre, são também os prendedores que servem de veda provisória até que os alimentos cheguem ao fim.

Acontece que, nas últimas semanas, eu percebi que estas escolhas, que sempre julguei aleatórias, na realidade apresentam um sinistro padrão: quando é necessário fechar algum pacote espalhado pela casa, eu só emprego os prendedores de plástico. Ou seja, nas horas de aperto, quando tenho um bom blusão precisando de secagem, ou é necessário içar um par de botas recém lavadas, vou correndo em busca do auxílio dos prendedores de madeira, confiante de que posso seguir com meus outros compromissos, pois eles segurarão minhas vestimentas com perfeição.

Agora, na hora de promover alguns deles para a cozinha e trazê-los para realizar tarefas dentro de casa, à vista das visitas, junto a jogos americanos e conjuntos de chá, aí opto por seus irmãos de melhor aparência. Os de madeira ficam lá fora, exilados, expostos às chuvas, ao vento forte, ao sol abrasivo, sem qualquer direito à dignidade, como um escravo romano. Ao passo que os de plástico, apesar do serviço porcamente realizado, ganham o direito de socializar, de conviver com a família, de sentir o ar-condicionado do interior e curtir uma aposentadoria no trabalho leve de manter alguns sacos de Baconzitos fechados, céleres como um mordomo vitoriano. Foram feitos para isso, aliás, com aquelas cores gritantes e o aspecto de quem acabou de receber uma demão de tinta e outra de botox. A madeira, por outro lado, é bruta, selvagem, não esconde aquilo pelo que passou, acinzenta-se com a ação do tempo e, no fim da longa vida, quando finalmente racha, quebra-se em lascas e poeiras calejadas. Diferente do plástico que, mesmo quando se rompe, o faz em um som de “claque” limpo, superficial, sem entranhas nem sujeira.

E eu, com esta minha máscara de sujeito progressista de esquerda, defensor das massas, antipático ao empresariado, que prefiro as feiras aos shoppings, que sou do cachorro-quente de esquina e do guaraná Fruki, que votei (e votarei) no Lula, admiro o MST, e me encanto com o vigor humano daqueles figurantes nas obras do Pasolini, descubro que estou mais para um coadjuvante blasé num filme do Antonioni, petiscando um ceviche enquanto pergunto “E o PT?”. Sim, pois os prendedores de plástico certamente votariam no Partido Novo, enquanto os de madeira filiaram-se ao PSTU em 1993.

Não haveria mais esperança para mim. Eu era um ser que vivia de aparências. Em breve, estaria me livrando dos copos de requeijão para expor taças nunca usadas no armário de vidro. Não demoraria muito, jogaria no lixo minhas velhas edições do Rubem Braga, simples como sua sintaxe, amareladas como suas borboletas, deixando à mostra nas estantes catálogos em capa dura de vinhos que não bebi e de museus que não visitei. Viveria daqui pra frente uma vida de roupa sempre passada, lençol sempre estendido, fotos sempre com filtro. Então seria ladeira abaixo, em direção ao neoliberalismo, ao conservadorismo, à gola polo, ao sapatênis, ao Coaching Quântico. Imaginei Fagner, Djavan, Eric Clapton sendo caras muito legais antes de selar o primeiro pacote de Nescafé com um prendedor de plástico comprado em um supermercado do shopping. Daí até falar as besteiras que andaram falando nos últimos tempos foi um passo.

Não. Eu não poderia me entregar tão facilmente. Ainda havia tempo. Antes que esta total transformação ética e estética se operasse dentro de mim e eu fosse flagrado em alguma foto com o Luciano Huck, dirigi-me ao pátio decidido a reverter esta situação e reparar as injustiças que eu venho praticando de uma vez por todas. Receberia meus companheiros de madeira dentro de minha casa, dividiria com eles minha sala, jantaria ao seu lado, os apresentaria às visitas, leria trechos do “Torto arado” para eles.

 Acontece que, no caminho para o quintal, comecei a observar melhor estes prendedores de salão, com suas banguelas atracadas a pacotes de macarrão e a Negrescos já vencidas, e percebi o ridículo naquilo tudo. Dali, depois de uma existência executando ações que qualquer elástico ou grampo também conseguiria realizar, os utensílios de plástico desapareceriam para o lixo, onde seus anos de botox seriam reciclados em baldes, bacias, potes, ou qualquer outra coisa que o capitalismo estivesse precisando no momento. Já os prendedores de madeira, viveriam uma vida plena, ocupados exclusivamente com aquilo que nasceram para fazer. No percurso, sentiriam a brisa das noites, o cheiro da chuva, os raios do sol. E fui eu quem lhes proporcionou isso tudo. Inconscientemente, eu sei, mas já é alguma coisa neste mundo de desigualdades à mostra.



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