Ontografia do silêncio

Ontografia do silêncio

Nossos jeitos de silenciar

Por Daniel Baz 28/07/2021 - 17:30 hs

O silêncio é substância que deve ser engolida aos poucos. Há que ingerir o gomo, a carne e o caroço. Por isso, é mais fácil digeri-lo em grupos, sorvê-lo pelas beiradas, da casca ao recheio. O silêncio é um alimento para bandos e manadas. Vejam os bovinos, dividindo entre si generosas fatias de quietude ensimesmada. Repare nas funcionárias que almoçam nas praças de alimentação sem trocar palavra. Comem, junto às batatas fritas e refrigerantes de máquina, as sobras da própria mudez. Ingerem tudo o que não puderam ou não quiseram dizer. Se muitas vezes optamos por deglutir o silêncio a sós, é porque não é bonito fazê-lo. Ele nos lambuza a boca e as mãos, esguicha seu sumo pela mesa, pelas pernas das cadeiras, pelas nossas canelas e calçados e pode mesmo atingir as pessoas que conversam na mesa ao lado.

O silêncio se serve em porções diversas, a depender do tipo. Um é o silêncio dos estacionamentos. Outro é o silêncio dos mortos. Existem silêncios fartos o suficiente para sustentar uma família por diversas gerações ou um felino por uma vida inteira. E nunca repetem uma mesma viscosidade. Jamais apresentam um mesmo sabor. Há o silêncio que os filhos mastigam quando o pai conta a eles o diagnóstico fatal e há o silêncio mascado a dois depois do ato sexual. Há o silêncio da palavra esquecida e o silêncio do azul. Existem silêncios largos, que se servem de madrugada assim que uma sirene ou o ladrar de um cão ecoa. Estes dão de comer a um bairro inteiro, oferecem repasto aos sonhos dos adolescentes, aos pesadelos dos aposentados e cobrem, com sua mucosa opaca, os bêbados caídos pelos canteiros.

Reparem nos silêncios que nascem e frutificam em alguns cantos da casa. Qualquer morada, mesmo as que vivem em frequente alarido, preservam seus rincões à prova de som. São assim os silêncios do dicionário deixado sobre a cômoda e dos bichos de pelúcia esquecidos na garagem. São assim os silêncios que se alocam dentro dos armários e debaixo das camas. Quando as crianças correm pelos cômodos e se metem nestes ambientes, não querem apenas se esconder, mas desejam ter contato direto com o profundo silêncio que ali se forma e interagir com essa existência quieta, tão diferente de sua natureza ruidosa. Já sabem que é necessário conviver com o silêncio para compreender seus estilos e usos.

 Tornar-se adulto é, antes de tudo, ficar fluente em silêncio. Pois o silêncio, como qualquer alimento que mereça este nome, também é signo. Não se distingue apenas pela fartura e pelo sabor, mas pelo que enuncia. Não que as crianças não saibam silenciar, mas o silêncio delas é sempre puro e bruto: de medo, de descoberta, de cansaço. Somente com o passar dos anos, aprendemos a polir nosso mutismo, cultivar suas arestas, torná-lo consciente e ativo, revestido de ironia, pesado de símbolos, de subtendidos e dúvidas, até que aprontemos nosso silêncio final, aquele que daremos de comer aos que ficarem.

Há gerações de poetas e astrólogos, de cartógrafos e arquitetos, de músicos e militares ainda se alimentando do silêncio deixado por aqueles que os precederam. É por isso que a morte de um indivíduo muito jovem causa revolta, pois trata-se de alguém que não conseguiu aprontar e maturar seu silêncio, deixando, em seu lugar, um ruído confuso e interminável, de coisa que não funciona por inteiro.

É pelo silêncio também que os objetos falam. Basta notar o que nos dizem o conjunto de porcelanas guardado, reservado a ocasiões que nunca ocorrerão. Não é fácil escutar esse silêncio de inércia, de matéria não usada, um silêncio sem gesto, sem vida tramada. Percebam o silêncio que nos devolvem os espelhos ou o que emerge daquela agenda do ano passado submersa na pilha de livros de cabeceira. É com distinção que o silêncio saboriza o café no fim da tarde, e amarga o currículo vitae não lido depois da entrevista.  

Há silêncios que são rotinas. Vazios confortáveis, feitos de calor e doçura, como quando penteamos os cabelos da pessoa amada, que mexe distraída no celular. Há silêncios que se conhecem pelo ritmo: o mar visto da janela à distância, o filho que sonha no quarto ao lado. Existem silêncios inesgotáveis: o silêncio da aranha atrás da porta e o silêncio que desliza na garganta do chacal. O silêncio entra em tudo, água às avessas, enche-nos os bolsos, espalha-se pelas toalhas dobradas, escorre pelo telhado nas manhãs de sábado, verte de nossos olhos e rugas, numa mistura de saciedade e falta. É que quem silencia fala e engole num mesmo bocado. Todos os pescadores já o sabem: a primeira coisa que se oferece a um peixe, antes de ajeitar a isca e envergar a vara, é nosso silêncio mais empenhado. Duas vidas se calam para que suas fomes se encontrem. Dois apetites se falam: dizer algo é dizer menos.

 Alguns silêncios se refugiam em locais inóspitos e só podem ser descobertos em expedição. Depois da regata, o sol se põe e o barco descansa suas madeiras. A última folha do outono na primeira poça do inverno. A gaveta de baixo, há meses fechada. Por isso, é preciso lamentar os silêncios que jamais conheceremos. Às vezes, um silêncio é nossa única construção legítima. Hamlet, monólogo após monólogo, preferiu nos deixar sua mudez. Vladmir e Estragon, depois das infinitas réplicas, prepararam sua definitiva quietude. A nós, cabe o trabalho de engolir seus silêncios aos poucos – nossa ração garantida, nosso idioma perplexo – como uma fala que, já completa, se secreta em espera.



O Litorâneo não se responsabiliza pelos conteúdos aqui divulgados, sendo única responsabilidade de seus autores. Como espaço livre e democrático, as opiniões aqui expressas são unicamente de seus autores.