Inutensílios, por favor

Inutensílios, por favor

Pela vocação de não servir pra nada

Por Daniel Baz 21/07/2021 - 20:13 hs

Na semana passada, eu falava da minha fascinação por estas lojas de conveniência que vendem tudo a mais ou menos R$ 9,99, o que dá algo, mais ou menos, entre R$ 9,99 e R$ 399. Mas é a crise. Não dá pra julgar. Além disso, a variação de preços está em dia com a diversidade de produtos que estes estabelecimentos negociam. Pois, se gastei boa parte da crônica anterior (e da paciência de vocês!), falando apenas de xícaras, hoje pretendo ir mais fundo na questão. Meu encantamento com estes comércios está ligado também aos inúmeros objetos que se sucedem em suas prateleiras e que eu, mesmo os vendo ali, à venda e expostos em abundante estoque, não faça ideia de sua utilidade.

Por isso, perscruto-os um a um, tentando entender para que servem itens que, a bem da verdade, não parecem ter serventia alguma. Examino, por exemplo, um produto que tem o tamanho e a proporção de um copo, cujo material à distância parece vidro, mas, ao aproximar-me, percebo que é plástico. Há uma espécie de argola presa a um tubo acomodado na horizontal em seu interior e o fundo é furado como uma peneira. Já não sei se seguro a coisa de cabeça para baixo, se ela é feita para ser manipulada com as mãos, se devo levá-la a boca, se é item de cama, mesa, banho, jardim, escritório ou aeromodelismo.

Manipulo engenhocas de alumínio e plástico, de onde emergem trombas, braços, apêndices e gargantas sinuosas. Levo ao rosto máquinas a pilha, que emitem um ronronar baixo e tremelicam em evoluções das quais se revelam cerdas, ou fios, ou novos sons. Quando acredito interagir com uma lâmpada, noto, à sua esquerda, uma folha laminada e uma entrada USB. Quando julgo ter em mãos um, digamos, ralador elétrico, reparo que há, em sua base, uma entrada USB e uma esponja. Quando juro que achei um, deixe-me ver, desentupidor de pia, dou-me conta das lamparinas chinesas penduradas na parte de trás (ou seria a parte da frente?), além, claro, de outra entrada USB. Vejo o cliente ao meu lado aproximar de seu ouvido algo que eu apostaria ser uma escova de dentes. Hesito diante destas estruturas complexas, desisto de compreendê-las, e me contento com esta situação radical: ter nas mãos peças que são pura forma, desligadas de qualquer uso.

De fato, eu afirmei se tratarem de mercadorias que parecem não ter qualquer serventia, mas, na realidade, elas foram feitas para executar múltiplas funções, conclusão que me permite acessar à verdade oculta, ainda que banal. Trata-se apenas do Capitalismo. A prática econômica também afetou os pequenos produtos da nossa rotina, obrigando-os a aprenderem novas funções, a variarem seus currículos e a concordarem em realizar trabalhos diversificados como forma de concorrer com seus vizinhos de gôndola nos mercados.

Afinal, para que levarmos apenas um porta-sabonete pra casa, se é possível comprar esta outra peça, em que cabem o sabonete, uma esponja de banho, uma toalha de rosto, um par de escovas de dentes, lâminas para barbear e ainda vem com espelho, dispenser e cafeteira portátil? Por que irei me contentar com um mero descascador de frutas, se posso levar este outro objeto que é também ralador, escorredor, misturador e vem ainda com abridor de lata, saca-rolhas e dispenser? Por que optar por uma mera caneta Bic, se existe um produto que escreve em todas as cores e ainda funciona como chaveiro, cutelo e apresentador de slides, além de possuir ainda fones de ouvido, cortador de unha, dispenser e três entradas USB? Pois é, na ânsia de passar a carroça de tudo, como diria Pessoa, ficamos de mãos vazias na estrada do nada.

O que me consola é que, como toda estratégia predatória do capital, o efeito volta-se contra si e o que sobra ao nosso redor são essas coisas disformes e herméticas. Verdadeiros inutensílios ávidos por não realizarem nada daquilo para o que foram projetados. Ouço o choro do véio da Havan, escuto o lamento de João Dória e de Luciano Huck, prevejo a tremedeira de Paulo Guedes, porque, ao menos aqui, nestes pequenos empórios presentes em todas as cidades brasileiras, o Deus Mercado teve todos seus fetiches destruídos. Mais ainda: assistiu ao nascimento de outro culto, movido a ócio, à inatividade e à disfunção, do qual já sou devoto empenhado e fiel.



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